
«Ficar do lado certo do que está errado» — Os bastidores do sucesso do People's, o novo espaço mais acarinhado de Nova Iorque
Margot Hauer-King & Emmet McDermott
Num episódio especial gravado durante a sua residência de cinco noites no espaço situado por baixo do Simpsons-in-the-Strand, em Londres, Margot Hauer-King e Emmet McDermott, cofundadores do People's, falam sobre a origem do nome do espaço, o seu primeiro encontro digno de um filme e a importância de serem «a corda e a onda».
JB: Olá e bem-vindos a mais um episódio do podcast Gentleman’s Journal. Estamos aqui no Nelly’s, por baixo do Simpsons in the Strand, à conversa com Margot Hauer King e Emmett McDermott sobre o People’s, que não é um clube, não é um pub, não é um bar, não é um restaurante. É muito, muito mais do que isso. Vamos falar com eles sobre como se conheceram, como alcançaram tanto sucesso com este espaço incrível e o que estão a fazer aqui em Londres esta semana.
Mas, antes de começarmos, gostaria de vos falar sobre o Clubhouse da Gentleman’s Journal. Este é o nosso pacote de adesão completo, que dá acesso a uma série de benefícios nas edições impressa e digital, incluindo duas edições da revista por ano, acesso integral a todos os nossos conteúdos exclusivos para assinantes, convites exclusivos para eventos presenciais, incluindo, por exemplo, painéis ao vivo com alguns dos convidados do nosso podcast, e uma newsletter na sua caixa de entrada todas as semanas, repleta das melhores histórias da Gentleman’s Journal.
JB: Margot.
MHK: Olá.
JB: Emmett.
EM: Olá.
JB: Como está?
EM: Bem.
MHK: Um pouco cansado.
JB: Um pouco cansado. Disseste que dormiste sete horas na noite passada.
MHK: Sete horas de sono é bom. Não, é...
EM: Mas sete horas depois de ter dormido duas horas?
MHK: Sim.
JB: Está bem.
EM: Sabes?
MHK: Sim.
JB: Assim é que é. É isto que esperamos da nossa hospitalidade.
EM: O défice de sono acumulado.
MHK: O défice de sono acumulado não é nada bom. Sabíamos que tínhamos de nos preparar para uma semana intensa. Temos cinco noites aqui. É muito exigente, mas, até agora, tem sido incrivelmente divertido.
JB: Portanto, este é o Podcast do Povo.
MHK: Este é o Podcast do Povo.
JB: Talvez mude completamente o nome.
MHK: Fica com ele.
EM: Nós assumimos o controlo.
MHK: Fiquem com isso. Têm de pôr lá o nosso logótipo. Mas, tirando isso, têm carta-branca.
JB: Talvez haja algumas questões jurídicas, relacionadas com direitos de autor.
MHK: Terá notícias do meu advogado. O meu marido é advogado, por isso terá notícias do meu advogado.
JB: Está bem. Na verdade, estou ansioso por conhecê-lo. Portanto, estamos aqui para falar sobre a Manifestação Popular — e estamos aqui sentados nela, não sei como vou acabar esta frase — em Londres. E é um lugar maravilhoso. É lindíssimo. O que sente por estar aqui?
EM: Residência, é assim que lhe chamamos.
JB: Uma residência.
MHK: Sim, cancelámos a palavra começada por P.
JB: Sim, a palavra com P era «pop-up».
MHK: A palavra com P é pop-up. Sabe, só a esse respeito, porque acho que... Não é que haja algo de intrinsecamente errado com os pop-ups. Tornaram-se uma prática muito comum. Acontecem imenso. Vemo-los por todo o lado. E acho que há algo em toda a forma como isto surgiu, no local onde o estamos a fazer e na nossa relação com o espaço onde estamos, que faz com que pareça um pouco mais do que um pop-up. Sempre falámos sobre o People’s, mesmo quando o estávamos a conceber, em como trazer um ambiente residencial à sala, à experiência e até à comida e às bebidas. Por isso, residência sempre nos pareceu uma designação mais adequada.
EM: Sim, mais intencional. Sim, acho que quando uma palavra é usada tantas vezes por marcas e afins, acaba por perder o significado. E nós pensámos muito nisto. É algo que já vem a ser preparado há bastante tempo.
MHK: Uma espécie de regresso a casa. E é curioso porque, para dizer o que talvez seja óbvio, este espaço não é o People’s. Normalmente, é o Nelly’s. O Nelly’s, que fica, bastante sedutoramente, por baixo do Simpsons in the Strand, um restaurante que o meu pai abriu há quatro meses... Na verdade, na semana em que me casei. Sim, há quatro meses. E as pessoas estão sempre a perguntar-nos, sabem, porquê aqui? E, claro, há esta história encantadora, devido ao papel que o meu pai tem desempenhado para nós, por vezes como uma espécie de conselheiro, ao longo dos últimos anos. Mas também porque o ambiente simplesmente nos pareceu o certo.
Tem aquela, vou usar a palavra que o Emmett usou, intencionalidade certa. Quando as pessoas entram aqui, quase parece que estão em Nova Iorque. E tem um certo encanto. Mas é engraçado, porque, quando abrimos o People’s, toda a gente vinha ter connosco e dizia: «Meu Deus, é tão bonito.» E nós tínhamos simplesmente de agradecer, porque ninguém quer ser parvo. Aqui, pelo contrário, é muito divertido, porque, quando as pessoas dizem: «Meu Deus, este espaço é tão bonito», podemos responder: «Pois é.» Como não fomos nós que o fizemos, podemos realmente falar sobre isso. Mas, não, tem sido... é muito entusiasmante.
JB: Então, recuando um pouco por um momento, para quem nunca foi ao People’s em Nova Iorque, é difícil resumir exatamente o que é.
MHK: E isso é intencional.
JB: Exatamente.
JB: Tenho aqui uma citação sua, Margot: «Não é uma discoteca. Não é um bar. Não é um restaurante. É outra coisa.»
MHK: Sim, temos sido aquelas pessoas incrivelmente pretensiosas. É uma coisa um pouco à William Faulkner. Descrevemos aquilo que fazemos pela negativa. Mas a razão é que sentíamos que faltava alguma coisa em Nova Iorque. Houve um momento muito específico que funcionou um pouco como um grito de união para nós: quando as pessoas estão sentadas no final de um jantar em casa ou num restaurante e se perguntam: o que fazemos agora? E onde vamos? E poderíamos alongar-nos — e provavelmente vamos fazê-lo — a falar do conjunto exato de contextos e circunstâncias que nos levou a sentir que isto fazia sentido. Mas percebemos que não queríamos abrir algo que se enquadrasse numa categoria já existente. Há muitos bares excelentes, galerias excelentes e restaurantes excelentes.
E o que significa explorar uma espécie de terceiro espaço que não existe noutro lugar? E um dos melhores elogios que podemos receber é quando as pessoas dizem: «Ah, não há grande termo de comparação.» Não sabemos bem como... não é isto nem aquilo. Não sabemos realmente como descrevê-lo.
E damos aos nossos visitantes bastante espaço para, de certa forma, projetarem nele as suas próprias ideias. Algumas pessoas poderão usá-lo para ver arte. Outras poderão vir comer um hambúrguer. Outras ainda poderão vir dançar. E, ao não sermos demasiado rígidos na forma como o definimos, criamos mais um palco para a interpretação de cada pessoa.
EM: E, mais uma vez, quando se põem rótulos nas coisas, cai-se na armadilha dos clichés. E é pela mesma razão que não descrevemos isto como um espaço temporário. Quando se ouve falar de um clube, sobretudo em Nova Iorque, à exceção, enfim, dos clubes mais antigos, que representam uma percentagem ínfima da vida social nova-iorquina, associa-se logo a uma discoteca. E até a palavra «discoteca» tem todo um conjunto de conotações, desde a decoração ao tipo de música, à forma de vestir, ao serviço de garrafas, aos foguetes luminosos ou a tudo o que entretanto passou a estar associado a essa experiência, e nós queríamos muito claramente evitar tudo isso.
JB: Então, nada de estrelinhas?
MHK: Infelizmente, não.
EM: Só a Margot, a estrelinha humana.
MHK: E isso deixa-me alterada ao fim da noite. Sim, é sobretudo isso.
JB: Portanto, não, não tens homens em tronco nu a levantar uma garrafa de...
MHK: Ah, isso temos. É definitivamente ridículo.
JB: Era o que eu ia dizer.
MHK: Nós temos isso. Eu sou a que segura a estrelinha, ele é o homem sem camisola. Na verdade, um dia, um dos nossos DJs tirou a camisola e tivemos de ter uma conversinha com ele, porque falamos muito sobre estar do lado certo do errado. As nossas caixas de fósforos têm uma frase que diz: «Se não consegues ser bom, sê menos mau», que, na verdade, era algo que o meu pai nos dizia quando éramos crianças. Portanto, se não consegues ser bom, sê menos mau ou fica do lado certo do errado.
JB: O lado certo do errado.
MHK: Acho que, em grande parte, é essa a linguagem que eu e o Emmett usamos entre nós, e está presente em tudo, desde o ambiente na sala até às fotografias que publicamos no nosso Instagram. Gostamos de explorar essa linha atrevida, por vezes até irreverente, mas, em última análise, queremos manter uma certa sofisticação e elegância porque, como sabem — e o Emmett fala disto de forma tão eloquente —, há um papel muito importante para os espaços que se tornam instituições. E, para transformar um espaço numa instituição, é necessário, até certo ponto, que este tenha um apelo intergeracional. Não pode ser excessivo; não podemos ir longe demais em nenhuma direção, seja com DJs em topless ou algo do género. Temos de manter um espaço divertido e atrevido. Adoramos irreverência, mas sem passar para o lado errado do errado.
JB: Então, poderia levar o meu pai, que tem 76 anos?
MHK: Sem dúvida. Acho que ele ia gostar. Temos alguns clientes habituais mais velhos e incondicionais, de quem gostamos muito, e são convidados fantásticos. Bebem champanhe, são muito divertidos e vestem-se bem.
EM: Eu iria ainda mais longe e diria que são essenciais, porque, se não tivermos uma clientela, ou hóspedes, de várias gerações, acabamos por cair um pouco nessa situação. Quando começamos a dirigir-nos exclusivamente a um determinado grupo demográfico, acabamos por afastar os restantes.
JB: Ou deixam de pertencer à faixa etária visada.
EM: Deixam de ter idade para isso. E sempre quisemos que este fosse um lugar onde se pudesse trazer os pais ou os filhos, enfim, quem quer que fosse, e viver uma experiência que se vai desenrolando ao longo da noite. Pode começar às seis com um copo de vinho e talvez um hambúrguer ou algo do género, e depois algumas pessoas vão-se embora e a música começa a ficar um pouco mais alta. O público muda um pouco, mas nunca é igual. Cada hora tem ali um ambiente diferente.
MHK: A minha mãe é conhecida por dar voltas na pista de dança.
JB: O que é que faz a sua mãe ir para a pista de dança?
MHK: Literalmente qualquer coisa. É bastante impressionante. É impressionante. Crescemos numa família muito virada para a dança.
JB: Uma casa onde a dança tinha um papel central?
MHK: Mas, voltando ao que o Emmett disse, começámos a ter aulas de Zumba pelo Zoom, dadas pela minha mãe durante a COVID, porque todos os meus amigos diziam: «Precisamos das aulas de Zumba da tua mãe.»
JB: A Zumba parece uma coisa do passado.
EM: Bem, um pequeno aparte. Organizei um jantar há uns anos e foi provavelmente uma das primeiras vezes que conheci a Deb, a mãe da Margot. E, sei lá, éramos umas 10 ou 12 pessoas e foi uma grande festa. E, provavelmente por volta da meia-noite ou da uma da manhã, aquilo transformou-se num musical imersivo dos ABBA.
JB: A sério?
MHK: Arte performativa.
EM: Arte performativa.
JB: Foi a Deb a fazer dos quatro membros dos ABBA em momentos diferentes.
MHK: Claro, sim.
EM: E o seu conjunto.
MHK: E nós também. Houve uma interpretação muito completa de Total Eclipse of the Heart, o que vem mesmo a propósito, porque ela faleceu esta semana, creio que na terça-feira.
JB: Bonnie Tyler.
MHK: Perdemos a Bonnie Tyler. E, na verdade, cerca de seis pessoas daquele jantar no teu apartamento enviaram-me mensagens a dizer: «Viste que a Bonnie Tyler morreu?» Tenho, de facto, uma história relacionada com a People-
EM: Espera, o desfecho da história é só...
MHK: Acho que vou para o mesmo sítio.
EM: A meio da atuação, a Deb decide demonstrar a sua técnica de agachamento, fazendo um agachamento apenas com o peso do corpo. E isto acontece, imagine-se, quando acaba de fazer 70 anos.
MHK: Aquela mulher está em melhor forma do que qualquer um de nós.
EM: Sim.
MHK: Então, o que eu pensei que ias dizer — e isto é uma espécie de regresso engraçado ao People’s, e nem acredito… Talvez isto seja errado a todos os níveis, mas tem piada — é que o Emmett teve esta ideia incrível bastante cedo no processo do People’s. Ele é muito… tu és bastante obcecado com os pormenores, muito obcecado com os pormenores. E começou a enviar-me mensagens a todo o tipo de horas estranhas do dia e da noite: «Precisamos de um aroma. Precisamos de um aroma para o People’s.»
EM: A meio do processo, fui diagnosticado com PHDA.
MHK: Eu podia ter-lhe dito logo no início, mas ele teve de pagar a outra pessoa para lho dizer. Então, o Emmett mergulhou de cabeça nesta aventura incrível com este fantástico fabricante de velas e criador de fragrâncias, para encontrar o aroma da People. Houve um período de cerca de três meses em que o Emmett dizia: «Vem cá, vem cá.» E havia uns 30 ou 40 frascos, que ele me punha a cheirar. E eu acabava inevitavelmente por sair de lá com uma terrível dor de cabeça, completamente confusa, e passava uma semana sem usar perfume.
Enfim, a certa altura, estava a ajudar a arrumar a cozinha e, quando volto à sala, vejo a minha mãe sentada no sofá, rodeada pelos nossos amigos da mesma idade, a fazer isto. Meu Deus. E eu: «Mas quem raio deu poppers à minha mãe? Quem deu poppers à minha mãe?» Entrei em pânico. E pensei: «Já não via disso por aí há algum tempo.» Fiquei horrorizada. E disse: «Está na hora de a levar para casa.»
JB: Horrorizado, mas não surpreendido.
MHK: Não, surpreendida. A Debs vai matar-te. E o Emmett, como se tornou perfeitamente normal, punha-a a testar as fragrâncias da People. E ela, creio eu, até deu a aprovação final à que foi para o carrinho.
JB: Portanto, temos de facto uma fragrância da People.
MHK: Temos um aroma do povo.
EM: Sim, temos. Temos aqui em Londres.
JB: A sério? Posso cheirá-lo agora?
MHK: Sim, se conseguir encontrá-lo.
JB: Está aí dentro?
EM: Não, não está.
MHK: Saberias se fosse.
JB: Ainda não foi ativado.
MHK: Sim, estava a guardá-la para o fim de semana. Logo no início, alguém nos deu um excelente conselho. Estávamos a falar com uma espécie de potencial investidor. E quando eu e o Emmett começamos a falar do People’s e de tudo o que queremos fazer, temos este péssimo hábito de avançar a toda a velocidade. E não parávamos de falar. E vamos fazer isto. Vamos fazer aquilo. À meia-noite, haverá tabuleiros de prata com batatas fritas para todos. E todo este género de ideias. E ele disse: «O meu único conselho para vocês é: “Não façam tudo de uma só vez.” Disseram-me que querem que isto dure. Que querem ir até ao fim. Estão cheios de ideias. Não revelem tudo de uma só vez.»
JB: Não precisam de abrir logo no primeiro dia com uma fragrância.
MHK: Não com tudo. E assim, quando estávamos a pensar neste fim de semana de cinco dias, um fim de semana muito prolongado, e até nesta residência, perguntámo-nos: como podemos criar uma espécie de cápsula do tempo dessa experiência de dar às pessoas um pouco mais a cada noite? Que momentos de interação humana ou de generosidade podemos ir acrescentando uns aos outros à medida que a semana avança? Porque cinco noites são, em muitos aspetos, um excelente teste para aquilo que estamos a tentar fazer durante períodos muito mais longos. Queremos que as pessoas se divirtam na terça-feira, mas também que continuem a vir no sábado.
E esse é um dos maiores desafios de abrir um espaço em Nova Iorque, sobretudo numa era a que eu chamaria a hospitalidade das redes sociais, em que temos visto, vezes sem conta, este tipo de frenesim incrível em torno de uma inauguração. E toda a gente tem de lá ir nas primeiras três semanas. E, se não fores e não publicares nada sobre isso, é como se não fosses ninguém. Depois, as pessoas simplesmente passam à novidade seguinte.
E, além de isso ser um desastre do ponto de vista comercial, porque muitas vezes, quando as pessoas vão lá só para tirar uma fotografia, não comem nem bebem realmente, nem gastam dinheiro a sério, pensámos: não queremos isso. Não queremos que a noite de terça-feira ou o primeiro mês sejam tão bons que depois não haja mais nada. Nunca se quer atingir o auge demasiado cedo.
JB: Não.
MHK: Portanto, é como se continuasse simplesmente a acrescentar mais coisas.
JB: É um pouco como todas as grandes noites: quando estamos em casa de alguém, há sempre pequenas surpresas. De repente, dizem: «Ah, agora tenho um gelado caseiro.» E nós: «Ah, fantástico. Mesmo quando eu já achava que isto estava a ficar aborrecido.»
EM: Acho que, de um modo geral, uma boa marca deve ter quatro dimensões nesse sentido. Esta ideia de surpreender e encantar. A surpresa perde a sua essência depois da primeira vez porque, obviamente, deixa de ser uma surpresa.
JB: Se estiveres à espera às 11h59 pela viagem.
EM: Sim, portanto, esse fator de surpresa e encantamento tem de mudar ao longo do tempo, tem de evoluir, embora, obviamente, tenha de parecer familiar naquele espaço ou algo do género. Mas há muita pressão, sobretudo no setor da hotelaria e restauração, para se mudar constantemente aquilo que se faz, porque há imensa concorrência. Há tanta coisa a acontecer, especialmente em Nova Iorque, que é a cidade mais caótica do mundo. E há muitas distrações, muitos cocktails virais e coisas do género.
MHK: E adoro essa questão das distrações, porque é aí que nos divertimos imenso. Temos à nossa volta uma equipa com muito mais experiência, digamos, a nível operacional. Ambos adoramos contar histórias. Adoramos a criatividade inerente à hotelaria e restauração. E é aí que nos divertimos imenso.
É aquela ideia: o que pode constituir um momento de surpresa e encantamento? O que podemos fazer que não pareça, de modo algum, estar a seguir tendências ou à procura de se tornar viral? Procuramos ativamente o oposto da viralidade. Mantivemo-nos, muito deliberadamente, o mais longe possível do TikTok, porque não queremos isso. Mas fazemos essas coisas divertidas. Por exemplo, na terça-feira à noite — ou talvez tenha sido na quarta, os dias já começam a confundir-se —, por volta das 22h30, trouxemos enormes tiramisus para partilhar.
JB: Oh, que delícia.
JB: Sim. Disse bem? Tu e o Jack estavam a gozar comigo por causa da forma como disse aquilo no outro dia. O que é que eu disse?
EM: Ela não conseguia decidir se era tiramisu ou tiramisu.
JB: Ah, sim, tiramisù. Estavam a rir-se de mim por eu dizer mal.
EM: Tenho quase a certeza de que é tiramisu.
JB: Tiramisù.
MHK: Tiramisù. Não, estou a perder o fio à meada outra vez.
EM: Que em italiano significa?
JB: Tu disseste-me isto: leva-me mais alto. Tiramisù, leva-me mais alto.
EM: Tiramisù.
JB: Sim, bem, tem cafeína. Portanto, a questão é: como é que se vão introduzindo estes pequenos estímulos sem nunca deixar que as pessoas se acomodem, sem nunca as levar, como disseste, a pensar: «Onde está a minha surpresa?» Quando éramos miúdos, sabes quando temos soluços e alguém tenta assustar-nos? Assim que o fazem uma vez, já não podem voltar a fazê-lo. Não se pode assustar alguém duas vezes; não se pode surpreender alguém duas vezes.
Portanto, esse é o nosso trabalho: perceber como é que se... Mas também o que se acrescenta e o que permanece igual? Quais são os pilares, as âncoras e os elementos familiares para as pessoas? Porque o reverso de tudo aquilo de que estamos a falar é que vivemos num mundo — sem querer ser demasiado filosófico — incrivelmente volátil. Não acompanho críquete de todo, mas, ao que parece, há uma excelente expressão no críquete: «o corredor da incerteza». Vivemos num corredor de incerteza.
Em termos geopolíticos, parece que tudo é incerto e está a mudar a um ritmo acelerado. Por isso, acho que uma das coisas a que as pessoas realmente se têm agarrado no People’s é que, como sabem, ouvimos dizer: «Parece que isto sempre esteve aqui.» Acho que o facto de o nosso espaço ser uma casa citadina com mais de 200 anos, classificada como património e com uma história rica enquanto galeria, tem um impacto subconsciente nos clientes.
E há nisso uma sensação de estabilidade e permanência. É significativo o facto de eu poder afirmar, com toda a confiança, que 70% das pessoas que vêm ao People’s são clientes habituais incondicionais. Portanto, embora haja sempre novidades, há também continuidade. Fazemos parte dessa continuidade. O nosso hambúrguer faz parte dessa continuidade. Assim, embora possamos introduzir novos pratos no menu, há certos elementos que se mantêm.
Nunca se deixa ninguém para trás. Lembro-me de uma situação estranha, quando uma vez fui nadar num sítio com ondas enormes, que supostamente seria imensamente divertido. Mas tinham uma corda grossa na água, presa entre dois pontões, para que pudéssemos desfrutar da loucura das ondas, porque tínhamos algo a que nos agarrar.
JB: É uma ótima analogia.
MHK: E acho que isso é mesmo muito estranho. Surgiu-me assim, do nada. Eu tinha uns 10 anos.
JB: Então, tu és a corda e a onda.
MHK: Nós somos a corda e as ondas. Somos a corda e as ondas. O hambúrguer é a corda.
JB: Abres um pub chamado The Rope and The Waves.
MHK: O tiramisù são as ondas. Por isso, acho muito divertido estarmos constantemente a explorar e a brincar com essa ideia. E como é que se encontra o equilíbrio certo? A Christine, que veio de Nova Iorque, é a nossa DJ residente, mas também é responsável por toda a nossa programação musical. Tivemos inúmeras conversas sobre o facto de não querermos ter apenas um alinhamento fixo de DJs, mas a Christine regressa sempre. Temos pessoas que fazem parte integrante daquilo que se ouve quando se vem ao People’s. E, ao mesmo tempo, estamos constantemente a apresentar novos nomes. Por isso, é muito divertido aperfeiçoar esta dinâmica entre a corda e as ondas.
JB: Fantástico.
EM: Recentemente, uma amiga minha descreveu a energia feminina como algo que não persegue, mas atrai. Acho que temos um bom equilíbrio entre as duas coisas. Acho que perseguimos e atraímos ao mesmo tempo.
MHK: Eu sou quem vai atrás; ele é quem atrai.
EM: E é aí que entram a corda e as ondas, sabe, é preciso fazer um esforço proativo para criar um edifício, mas também para manter um chamariz. E é um equilíbrio difícil, porque uma coisa exige mudança e a outra exige estabilidade. Mas, no fundo, até isso se resume, por exemplo, à conceção do espaço, sabe, e também ao nosso equilíbrio enquanto parceiros.
MHK: Na verdade, não se veem assim tantas duplas de homem e mulher no setor da hotelaria. E eu nunca tinha reparado nisso até começarmos a trabalhar juntos e as pessoas estarem sempre a comentá-lo. E, quando começaram a fazer esses comentários, pensei: uau, isto é mesmo muito interessante para mim, porque, tantas vezes, neste setor — e, na verdade, isto aplica-se a tantas outras coisas —, temos uma enorme tendência para pensar demasiado, recorrer excessivamente a grupos de discussão e complicar em demasia. E, na verdade, a experiência vivida em bruto e o instinto são incrivelmente poderosos. Mas eu e o Emmett temos experiências de vida muito diferentes.
Para dar um exemplo: lembro-me de que, quando estávamos a falar sobre o tecido para o nosso banco corrido, havia um de que estávamos completa e absolutamente rendidos. Era deslumbrante, muito giro, mesmo diferente. E, de repente, eu disse: «Bem, na verdade, se estiver de vestido, não quero que esse tecido me toque nas pernas.»
E penso que são esses momentos em que algo… O Emmett pensa, vê e experiencia o mundo de formas que eu não consigo. E eu experiencio o mundo de formas que ele não consegue. E, quando juntamos essas perspetivas, obtemos, na verdade, uma visão mais completa do que a de qualquer um de nós isoladamente.
JB: Bem, talvez seja uma boa altura para falarmos sobre como se conheceram e como tudo isto surgiu, porque parece mesmo saído de um filme. É uma espécie de comédia romântica ao contrário. Parece ser uma história muito interessante.
MHK: Somos a comédia romântica mais contemporânea de sempre, porque não há sexo, é só negócios.
EM: É tipo a comédia romântica mais aborrecida de sempre.
MHK: É como uma comédia romântica de uma escola de gestão.
JB: Sim, uma comédia romântica à Stephen Bartlett.
MHK: Exatamente. Não, quer dizer, fomos apresentados, e isto às vezes é retomado e-
JB: Muitas reportagens gostam de começar com isto.
MHK: Sim, e, por vezes, sinceramente, a história foi quase deturpada, tornando-se, creio eu, um pouco mais grosseira do que realmente foi, porque a forma como nos conhecemos foi muito naturalmente nova-iorquina. E é por isso que acho que ambos adoramos viver lá: toda a gente tem esta atitude de «puxa uma cadeira, vou apresentar-te os meus amigos».
Acho que há outras sociedades ou culturas em que as pessoas são bastante reservadas em relação às suas amizades e gostam de guardar os amigos só para si. Já em Nova Iorque, há uma verdadeira abundância e generosidade. E, se conhecemos alguém interessante, vamos apresentá-lo a outra pessoa. É como se houvesse uma troca constante de cartas Pokémon.
JB: Aqui, isso não acontece vezes suficientes.
MHK: Não acontece.
JB: É realmente uma pena.
MHK: Se eu fosse a Londres e me convidasses para jantar, eu perguntaria: «Olha, posso levar um amigo?» E tu responderias: «Quem?» E isso é normal aqui. Em Nova Iorque, dirias: «Claro, podes sentar-te ao meu colo se não tivermos mais nenhuma cadeira. Havemos de nos arranjar.»
E penso, sem querer fugir ao assunto, que uma das principais razões para isso é o facto de tão poucas pessoas em Nova Iorque serem de lá. Toda a gente já foi a pessoa nova. Toda a gente teve, de certa forma, de passar por esta experiência. E, por isso, existe esta espécie de generosidade de retribuir o gesto. Enfim, foi uma pequena digressão. Mas conhecemo-nos através de um amigo muito próximo de ambos que, nas palavras dele, achou que nos daríamos bem.
JB: Quem é esse amigo? Podemos dizer o nome dele?
MHK: Originalmente, o seu amigo Christian Bjelland, B-J-E-L-L-A-N-D.
JB: E agora ele detém 70% da People’s, creio eu?
MHK: Sem dúvida. Na verdade, 100%.
EM: Ele adora lembrar-nos disso.
MHK: Não. E isto foi, mais uma vez, em Nova Iorque: o Christian e o Emmett conheciam-se da faculdade. O Christian acabou por fazer parte da administração do condomínio do primeiro apartamento para onde me mudei em Nova Iorque.
JB: Isso é uma frase tão nova-iorquina. Tínhamos amigos em comum. E ele e a mulher, quando eu estava a passar por uma fase de solteira bastante, digamos, atribulada, viviam no apartamento até onde eu percorria o corredor, e preparavam-me uma refeição acabada de fazer e ouviam os meus devaneios caóticos sobre o fim de semana anterior. E o Christian juntou-nos. E não foi uma coisa do género: «Ah, vais ter um encontro às cegas num restaurante requintado, com toalhas de mesa brancas.» O Emmett não apareceu com uma rosa. Eu não usei saltos altos. Foi tudo muito natural.
EM: Eu usei.
MHK: O Emmett usava saltos altos e eu cheguei com uma rosa. Teria sido amoroso. Mas conhecemo-nos e, voltando à sua observação cinematográfica, houve mesmo aquela sensação de que estava destinado. Sentámo-nos e, passados poucos minutos, já conversávamos como se nos conhecêssemos há metade das nossas vidas.
Lembro-me de que, cerca de uma semana depois de nos conhecermos, o convidei para o jantar do meu 30.º aniversário, com 18 pessoas. E todos os meus amigos ficaram tipo: «Posso dizer palavrões?» Todos os meus amigos perguntavam: «Quem caralho é este tipo?» E eu dizia: «É o meu melhor amigo.» E eles perguntavam: «O que é que se passa?» E criámos muito rapidamente uma ligação e ficámos inseparáveis.
Ambos temos irmãos. Acho que nenhum de nós vive onde os nossos irmãos vivem. Por isso, acho que também havia este elemento de encontrarmos a nossa pessoa longe de casa. Isso foi muito especial. E, quer dizer, devias contar a história do Woolsey, porque tem mais piada quando és tu a contá-la. É mais embaraçosa.
EM: Bem, acho que, quando conhecemos alguém, acabamos por divagar um pouco, e eu estava a falar sem parar deste projeto de sonho que queria pôr de pé e de como tinha acabado de passar imenso tempo... Estava a trabalhar num filme em Londres e passava imenso tempo aqui, e regressei a Nova Iorque, já depois da pandemia, cheia de entusiasmo pela hotelaria e restauração e por todos os espaços fantásticos de Londres que, aparentemente, tinham sobrevivido à pandemia. Quer dizer, obviamente que isto não é verdade, mas parecia que tinham sobrevivido incólumes e que nada tinha realmente mudado aqui, porque as instituições daqui duram para sempre.
E Nova Iorque ficou tão gravemente afetada por tudo aquilo. E toda a gente dizia: «Bem, será que o setor da hotelaria e restauração alguma vez vai recuperar? Será que Nova Iorque vai voltar ao que era?» Era tudo uma hipérbole terrível. Mas eu voltei, enfim, inspirada e com vontade de abrir um espaço e fazer alguma coisa… Já estava um pouco farta da indústria cinematográfica e queria fazer algo diferente.
Enfim, estou para ali a falar disto tudo à Margot e a dar-lhe todos estes exemplos de espaços. E eu disse-lhe: «Sim, tipo, já foste ao Wolseley? É uma enorme inspiração.» E ela ali, sabem, só a sorrir e a acenar com a cabeça.
E eu: sim, o Jeremy King é, sabem, sem dúvida o mais extraordinário restaurador de Londres, possivelmente de sempre. E eu a falar, a falar, sem parar. Até que, por fim, a Margot disse: «Sim, já ouvi falar. Na verdade, trabalhei lá quando tinha 15 anos.» E eu: «Uau, que coincidência!» E ela: «Não, não é coincidência.» E foi assim que estabelecemos uma ligação.
MHK: É uma coisa muito difícil de dizer nessa altura. Tipo, dizer algo como «ah, é o meu pai». Parecemos logo uns idiotas. Então não disseste? Não, disse que trabalhava lá, o que, pensando bem, é muito pior e muito mais pretensioso. É mesmo, mesmo...
EM: Isso acabou por vir à baila a certa altura da conversa.
JB: Está bem, então foi nesse dia. Certo.
MHK: Fiz isso em menos de 10 minutos. Não. Não deixei aquilo pendente.
31EM: Mas é um momento incrível, tipo, sim, «destino» é a palavra certa, ou simplesmente os astros a alinharem-se. E é engraçado, tenho de te contar uma coisa. Mas é um momento incrível, tipo, sim, «destino» é a palavra certa, ou simplesmente, sim, sim, os astros a alinharem-se. E é engraçado, sabes, quando falas daqueles artigos que dizem: «Ah, conheceram-se num primeiro encontro», blá, blá. Mas não houve química nem atração.
Sentia-me enormemente atraído pela Margot. Havia uma química incrível entre nós. E acho que, num primeiro encontro, tudo pode acontecer. E, a partir daí, a relação pode tornar-se romântica ou seguir outro rumo qualquer. Nós não seguimos por aí. E acho que, talvez uma semana depois, ainda nos perguntávamos: vamos avançar com isto? Mas, de certa forma, muitas pessoas perguntam-se: que tipo de relação será esta? Mas nós pensámos: vamos construir algo juntos.
JB: Que tipo de negócio?
EM: Mas não era assim tão claro, do género: isto não é aquilo, mas podia sê-lo. Era simplesmente magia e nós canalizámo-la numa determinada direção.
MHK: Sim. Essa ideia de que, bem, não quiseram avançar para uma relação romântica, por isso não havia química. Não estaríamos a divertir-nos tanto como estamos.
EM: Sim.
MHK: Há tantas formas de química. Por exemplo, temos química com o nosso melhor amigo. Mas há também uma espécie de magnetismo. E, correndo o risco de ser muito sentimental numa sexta-feira de manhã ou à tarde, queremos trabalhar com alguém que nos faça querer ser melhores, que nos faça sentir mais criativos e entusiasmados. Porque, sim, dizer que vamos abrir um bar é incrivelmente divertido. Mas abrir um bar é, na verdade, bastante difícil e há muitos desafios. Há desafios muito práticos e há desafios pessoais. As pessoas estão cansadas. Há álcool, há amigos. É complicado.
E eu sinto que, sabe, arriscámos imenso, mas pareceu-nos tão óbvio. Não pareceu… Estávamos literalmente a assinar um acordo de parceria duas semanas depois de nos conhecermos. E é como o primeiro encontro com alguém com quem acabamos por casar. Esse é o primeiro encontro perfeito. Na verdade, não é, é tão difícil—
JB: As pessoas deviam fazer isto mais vezes.
MHK: — para melhorar ainda mais. Olhando para trás, claro, parece uma loucura. Não nos conhecíamos e apostámos tudo. A única forma de o descrever com sinceridade é que simplesmente parecia certo. Parecia óbvio. Senti que o Emmett tinha entrado na minha vida naquele momento tão específico por uma razão incrivelmente específica. E sentimos simplesmente que os nossos futuros estavam interligados. Pensámos: vamos construir algo incrível juntos. E essa convicção manteve-se no meio de todo o caos, de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos e até de tetos a desabarem durante uma visita de investidores.
JB: Sim. Qual foi a pior parte? É que, até agora, tudo parece muito glamoroso e chique.
MHK: Não tem glamour nenhum.
JB: Então, vamos contar algumas histórias de terror.
MHK: Caves, inundações, sanitas, as pessoas deitam pela sanita abaixo coisas que não deviam.
EM: Seria de esperar que adultos soubessem distinguir entre papel higiénico e papel de cozinha.
MHK: Não sabem. Na verdade, é um ótimo anúncio de serviço público. Por favor, parem de deitar toalhas de papel nas sanitas do People’s.
JB: Nesta canalização antiga do século XIX.
EM: Canalização muito antiga, deem-nos um desconto.
MHK: Uma vez, cheguei ao People’s e, Deus o abençoe… Agora temos uma espécie de verdadeira infraestrutura de canalização em condições. Uma vez, cheguei ao People’s e o Emmett estava no chão a apertar os parafusos, porque as pessoas tinham estado em cima da sanita a tirar fotografias e tinham-na desaparafusado da parede.
Acho que isto nos leva de volta a essa ideia de estar do lado certo do que está errado. Queremos que as pessoas se divirtam. Queremos que tenham esse tipo de energia e de sensação, mas também não queremos que nos destruam a casa. E esta é a nossa casa.
E cada uma das coisas no People’s foi lá colocada com tanta intenção, tanto dinheiro e também tanto amor da nossa parte. Aquele espaço é-nos muito querido. Por isso, quando vemos as pessoas ultrapassarem os limites e levarem a pessoa… Quer dizer, mas, brincadeiras à parte, acho que o pior que aconteceu foi termos tido uma inundação na cave.
JB: Está bem. E isso aconteceu devido a chuva intensa ou a um cano, ou como é que aconteceu?
MHK: Foi um cano.
EM: E estava a decorrer um evento muito exclusivo no andar de cima.
JB: A sério?
MHK: Sim. Não, e não foi o ideal. O espetáculo tinha de continuar. O espetáculo tinha de continuar. E ninguém vai lá abaixo, mas isso significava, no fundo, que a equipa ia ficar tramada. O gelo que estava lá em cima era o gelo com que tinham de trabalhar.
JB: E ninguém descobriu?
MHK: Ninguém no andar de cima sabia, o que é incrível, porque acho que a única coisa mais stressante do que a inundação foi quando chamámos um canalizador de emergência e ele apareceu praticamente com um fato de proteção química. E eu: «Estão paparazzi lá fora.» E eu: «Este homem aparece com um fato de proteção química.» E depois digo-lhe: «Vai ter de tirar isso para atravessar o espaço.»
JB: Podia ser um visual. Podia ser apenas uma vibe.
MHK: E ele tem todas as ferramentas e todo o equipamento. E diz: «Não, vou entrar assim.» E atravessou a festa e eu baixei um pouco a cabeça.
EM: Tivemos de fazer uma espécie de barreira para o proteger.
JB: Meu Deus, foi…
EM: Se imaginar.
JB: As pessoas podem pensar que está ali debaixo uma celebridade a entrar às escondidas.
MHK: Se tivesse sido no Met, ter-nos-íamos safado. Alguém teria dito: «Uau, que interpretação fascinante do tema. É tão interessante e algo vanguardista.» Mas, no contexto do evento, foi um desastre absoluto. E depois houve outra situação bastante hilariante, de que falei recentemente: abrimos em pleno inverno e temos uma claraboia de 17 pés, que é enorme. Por isso, desde o início que foi difícil controlar a temperatura, porque no inverno há o risco de um frio extremo e, no verão, aquilo pode aquecer como uma estufa. Ao fim de cerca de seis meses, tivemos de fazer alguns ajustes bastante significativos ao nível da engenharia.
Mas abrimos no inverno, com o aquecimento no máximo, no nível dois ou três. E eu descrevi a sensação como estar num filme de Hitchcock, porque normalmente, quando há uma falha de eletricidade num sítio — se a eletricidade falhasse agora —, tudo pararia de repente. As luzes apagar-se-iam.
A eletricidade deixaria de funcionar. Os autoclismos não funcionariam. Aconteceria tudo ao mesmo tempo. O ar condicionado desligar-se-ia. Ficámos sem eletricidade, mas foi acontecendo de uma forma algo hitchcockiana, sim. Portanto, com três minutos de intervalo entre cada coisa.
E senti-me como se estivesse no Psycho ou algo do género, ou talvez no The Shining, com alguém a perseguir-nos, porque primeiro foi a música. Ficámos tipo: «Oh não, ficámos sem música.» Então, descemos para ver o que se passava com a música. Depois foi o sistema de pagamento. E a nossa equipa disse: «Não conseguimos aceitar pagamentos com cartão.» Tipo, meu Deus, aconteceu alguma coisa com a eletricidade.
EM: Era como se um assassino em série estivesse a chegar.
MHK: E depois foi o calor. E foram-se desligando um a um, até que, por fim, ficámos mergulhados na escuridão. E nós: «Faltou a luz.» E foi assim uma espécie de...
JB: Portanto, a noite acabou aí, presumo?
MHK: Sim, isso acabou mesmo com a noite. É difícil recuperar de uma coisa dessas. Não tínhamos velas suficientes no local para conseguir continuar. E o outro problema é que hoje em dia ninguém anda com dinheiro. Quer dizer, na verdade, teria adorado poder simplesmente dizer para esquecermos as contas. Fazíamos tudo na mesma.
EM: Mas eu ficaria sem música e sem luz.
MHK: Sem música, sem luz. E, na verdade, é engraçado, porque o pai sempre nos apoiou muito. Desde o início, deixou sempre muito claro que, se quiséssemos falar sobre os conselhos bem-intencionados das pessoas, faríamos isso os dois. Ele dizia: «Isto é uma coisa tua e do Emmett. E, se quiseres falar sobre isso, Margot, falas comigo e com ele ao mesmo tempo.» Manteve-se completamente à margem. E, de certa forma, a principal maneira que encontrou de se envolver foram as nossas sessões de terapia à sexta-feira, em que reservávamos mais ou menos uma hora ao início da tarde de sexta-feira e ficávamos simplesmente a conversar-
JB: Toda a gente.
MHK: — Para o pai, por uns tempos.
EM: Começámos a chamar-lhe Jerapee.
MHK: Jerapee. E Theramee também. Theramee era bom. O Emmett mandava-me uma mensagem: «Estás pronto para o Theramee?» E era ótimo. Falávamos com ele e ele ia-nos contando histórias. E nunca, nem uma única vez, nos disse que devíamos fazer isto ou aquilo. Mas era esta forma incrível de pintar um quadro que nos orientava e nos mantinha com os pés assentes na terra.
Enfim, quando lhe estávamos a contar como tinha sido a pior noite de sempre, uma morte por mil cortes de energia, ele disse: «Que engraçado. Ontem rebentou um cano no Ritz, o que fez com que ficássemos sem água no Arlington durante todo o dia. Nem uma gota. Estavam a tentar chegar ao fim do serviço. A equipa teve de lavar as mãos com uma espécie de água destilada que tinham trazido na noite anterior.»
E então conta-nos esta história, com um sorriso no rosto. E eu disse-lhe: «Então, o que me estás a dizer, pai, é que as coisas não melhoram.» E ele respondeu: «O que te estou a dizer é que os problemas não desaparecem. Por melhor ou pior que tu e o Emmett se saiam, nunca chegará o dia em que não terão problemas. Não gastem energia a preocupar-se por terem problemas. Usem essa energia para enfrentar os problemas quando eles inevitavelmente surgirem.» Mas pronto, têm acontecido coisas desse género.
EM: As palavras mais reconfortantes dele foram: «Não te preocupes. O pior que pode acontecer é arderes por completo.» É o pior que pode acontecer.
MHK: E mesmo já a pensar nesta semana, enviei-lhe uma mensagem a certa altura, na semana passada. E disse-lhe: «Tenho de ser muito sincera contigo, pai. Estou um pouco nervosa com esta coisa do People’s em Londres.» E ele respondeu: «Porquê? Vão correr mal muitas coisas. Não faz mal.» E é incrível, acho que ambos temos bastante facilidade em deixar as coisas fluir, mas também um certo grau de perfecionismo. O pai é o perfecionista por excelência, mas encontrou uma forma de equilibrar esse perfecionismo com um pragmatismo radical. Acho que aprendemos muito com isso. Por exemplo, as coisas vão ser difíceis.
JB: Olá. E apenas um breve lembrete sobre o clube Gentlemen’s Journal. É o nosso pacote de adesão, que dá acesso a uma vasta gama de benefícios no universo da Gentlemen’s Journal, incluindo duas edições da revista por ano, acesso total a todos os nossos conteúdos pagos, convites para eventos exclusivos reservados a membros e uma newsletter semanal enviada diretamente para a sua caixa de entrada. Introduza POD20 em www.gentlemansjournal.com (http://www.gentlemansjournal.com) para obter 20% de desconto sobre o preço habitual da adesão ao clube.
MHK: Basta conhecê-las da forma certa.
EM: E se estiver à espera de que as coisas corram mal.
JB: É uma ótima forma de começar.
EM: Sim.
MHK: Sim.
EM: É tipo, fui ver a Escócia jogar contra o Brasil em Miami. Sim.
MHK: Analogia perfeita. E tenho de reconhecer o mérito dos escoceses, porque entraram com as gaitas de foles a tocar a todo o volume, como se estivessem no topo do mundo. Todos sabiam que iam perder. Sabiam-no.
JB: Só há vantagens.
EM: Não havia mesmo nada que lhes desanimasse; estavam radiantes por estar ali. E divertiram-se imenso. Estava toda a gente a beber. O Brasil marcava golo atrás de golo e nada. Continuavam a festejar.
MHK: Não importa.
EM: É isso mesmo. É como se tivéssemos simplesmente de avançar, porque a vida é assim e tudo vai correr mal ou pode correr mal. E, quando isso acontece, não ficamos surpreendidos nem desiludidos.
MHK: É preciso rir.
EM: É uma questão de ir levando.
MHK: Sim. E tocar gaita de foles-
EM: Sim. Enquanto o mundo está a arder.
MHK: — Entrar num jogo contra o Brasil é perfeito.
JB: Isso é, de certa forma, bonito.
EM: E à saída!
MHK: Sim. E há umas semanas, quando vinha para cá, embarcámos num voo… Estive em Edimburgo para o casamento de um amigo muito próximo, a caminho de Londres. Portanto, voei de Nova Iorque para Edimburgo e o nosso avião estava cheio de escoceses a regressar a casa vindos da América. Triunfantes, porra. E esse é precisamente o espírito. E a hospitalidade é uma comédia de erros. É a peça em que tudo tem de correr mal. E é nesse sentido que, como diz o Emmett, é uma espécie de lembrete tão bonito para a vida.
E as pessoas perguntam muitas vezes: «Sabes, porque é que o Jeremy... como é que o teu pai consegue estar tão calmo?» E a resposta é: porque já faz isto há muito tempo. E acho que já... e ocorreu-me no outro dia que temos algumas novidades a chegar a Nova Iorque e estávamos a falar sobre isso. E comecei a sentir aquela ansiedade a crescer. Meu Deus. E pensei: não, nunca mais vamos sentir... nunca mais vai ser como quando abrimos o People’s, porque nunca tínhamos... Podemos dizer racionalmente que as coisas vão ser difíceis. Ainda não tínhamos vivido aquilo que estávamos a descrever. E agora já passámos quase dois anos a ver o inevitável acontecer e as pessoas a continuarem a dançar.
Também tivemos uma festa do Orgulho em junho passado. Fazemo-la todos os anos, mas foi a primeira que organizámos. Portanto, é no último fim de semana de junho, chama-se God Save the Queen, e o ar condicionado avariou no People’s.
EM: Em meados de junho.
MHK: Não, quer dizer, não me interpretes mal. Londres está bastante abafada esta semana; em Nova Iorque, naquela altura do ano, estamos a falar de uns 38 graus e muita humidade. Só me aguento à custa de pensos rápidos da Hasbro e pensos para bolhas. É duro.
E finalmente tínhamos conseguido pôr o ar condicionado a funcionar e estávamos muito satisfeitos e orgulhosos de nós próprios, mas avariou-se na noite da festa do Orgulho, e toda a gente sacou dos leques e começou a dançar; as pessoas estavam literalmente ali a suar, mas a divertir-se como nunca.
JB: Isso é qualquer coisa.
MHK: E se entrarmos em pânico, eles também entram. Quanto mais mantivermos a serenidade, a calma e o controlo, mais as pessoas…
JB: Talvez isto estivesse destinado a acontecer. Talvez esta fosse uma das surpresas.
MHK: Foi um pouco sensual. Era como se as pessoas estivessem radiantes.
JB: Como no videoclipe de Hot in Here, por exemplo.
MHK: Sim, exatamente.
JB: Acho que um dos vídeos do Sean Paul se passa numa cave e fica bastante quente.
MHK: No vídeo da Rihanna, ela está, de certa forma, a dançar nas poças de água da chuva. Mas foi divertido e memorável. E isto também não me sai da cabeça por causa deste casamento recente: aquela citação de Maya Angelou que diz que as pessoas não se vão lembrar do que dissemos ou fizemos, mas vão lembrar-se de como as fizemos sentir.
No fim de contas, a hospitalidade não é uma questão de factos ou de ações, mas sim de sentimentos. E, embora possamos dedicar uma quantidade desmesurada de tempo a coisas como os copos, não queremos que ninguém pense: «Oh, vejam este copo tão bonito.» Queremos apenas que guardem, de forma subliminar, a experiência de beber por ele, que se lembrem de que estava lá e de que gostaram. E o nosso trabalho é transformar um milhão de pequenas escolhas numa única experiência que, simplesmente, se sente.
JB: Sim. E é isso mesmo, não é? Parece muito simples quando o diz assim, mas muitas vezes, quando falo com pessoas do setor da hotelaria e restauração, tento perceber como podemos engarrafar, por assim dizer, aquilo que não se pode engarrafar, e o seu pai é obviamente extraordinário nisso. Há muitos espaços em Londres que nos vêm à cabeça e que são muito mais do que a soma das suas partes.
Se tivéssemos de tentar encontrar uma fórmula — embora talvez não seja possível —, qual é o segredo dos espaços que têm uma energia agradável, um bom ambiente, que ficam realmente na memória e aos quais apetece voltar? Estou a fazer-lhe uma pergunta um pouco impossível.
MHK: Quer dizer, parte da resposta está no nosso nome.
EM: Sim.
JB: Porque é que se chama People’s?
MHK: Versões disto.
EM: Há muitas versões diferentes disto. Quer dizer, penso que a explicação mais imediata está ligada ao espaço, à história do espaço. Há cem anos, quando era a Downtown Gallery, um espaço artístico muito marcante e influente em Nova Iorque, foi a primeira galeria a representar exclusivamente artistas americanos. Muitos dos primeiros modernistas americanos começaram aí e todos pertenciam a um coletivo artístico chamado People’s.
JB: Ah, ótimo.
EM: Portanto, é uma espécie de homenagem à história boémia da zona e à sua ligação às artes em geral. Acho que talvez tenha adquirido algumas camadas de ironia e, enfim, não sei. Na verdade, é engraçado: quando eu e a Margot nos conhecemos e mencionei o nome, ela disse: «Sabes, trabalho em branding há muitos, muitos, muitos anos e é raríssimo um nome fazer sentido de imediato.»
MHK: Os projetos de criação de nomes nas agências de branding são aqueles que ninguém quer receber. É horrível. É horrível. E a verdade é que, com a maioria dos nomes — o meu pai dizia-nos ontem —, se alguém tivesse dito: «Ah, vai surgir uma das bandas mais importantes de sempre e vai chamar-se Beatles. É um trocadilho giro com beat», a reação seria algo como [constrangimento]. Somos nós que damos valor aos nomes.
Mas, assim que o Emmett me disse People’s, pensei: percebo perfeitamente. E sempre que tivemos um desses momentos — e, na verdade, acho que isso faz parte da resposta à sua pergunta — não se pode... e, pegando naquilo que o Emmett disse sobre atrair ou perseguir, quando é a escolha certa, quando surge naturalmente, não vale a pena complicar demasiado; basta seguir essas sensações, esses momentos em que tudo parece certo. Por isso, assim que ele disse People’s, pensei: «Sim, não podia estar mais de acordo. É People’s.» Não experimentámos outros nomes, não fizemos estudos com grupos de discussão, não tivemos, sei lá, sete caminhos diferentes para explorar, nem trabalhámos com um designer para lhes dar o máximo de vida. Limitámo-nos a pensar: é People’s.
JB: Então, porquê People’s? Porque é que esse nome lhe fez sentido?
MHK: Bem, quanto à questão histórica, sabe, acho que o mais interessante no passado do nosso espaço enquanto galeria é que existe uma tradição. E, mais uma vez, acho que tudo o que fazemos está constantemente a oscilar, por assim dizer, entre os factos e a fantasia.
Os factos são realmente interessantes. Esta mulher, Edith Halpert, tudo o que o Emmett acabou de dizer sobre ter sido, digamos, a primeira galeria e sobre Abby Rockefeller ter sido a benfeitora que construiu o espaço, a filantropa que o construiu com ela. Há imensos factos verdadeiramente fascinantes.
É aí que a fantasia começa a ganhar vida, e estamos a falar da Nova Iorque dos anos 20. E, para o dizer de forma um pouco simplista, nos anos 20 os artistas estão no centro da cidade. Estão no Bowery e no centro, enquanto as galerias ficam na zona alta. É nesta altura que começa a surgir aquilo a que se chama a Museum Mile. E há uma separação incrivelmente estranha entre a arte e quem a compra, entre o colecionador e o criador. O que a The Downtown Gallery — como se chamava o espaço —, ou a galeria do centro, e Edith se propuseram fazer foi criar algo mais parecido com um salão, uma fusão.
Quer dizer, ela até o pôs no nome: The Downtown Gallery. E nós recuperámos essa parte da sua história através do nosso código de vestuário, a que chamamos «downtown formal». Assim, ela instalou uma galeria em pleno coração da zona onde estavam os artistas e os criadores. E, de repente, os compradores, os artistas e toda a gente passaram a estar juntos. Há imenso material de arquivo incrível sobre a sua galeria. E vemos Jackson Pollock lá dentro, a beber vinho, e uma espécie de loucura naquele espaço que era, como disse Emmett, boémio, mas intrinsecamente social e centrado nas pessoas.
Assim, ela acabou por nos deixar uma espécie de modelo: sim, abriu uma galeria, mas abriu uma galeria que encerrava uma espécie de compromisso social, que ia além do que as galerias faziam na altura. E penso que, de forma semelhante, adotámos esse espírito na maneira como encaramos o nosso nome e a ideia de «People’s». E quando as pessoas nos dizem que o People’s é delas e que, enfim, adoram o espaço, isso é muito gratificante para nós. É preciso que as pessoas se apropriem dele. Têm de criar uma relação pessoal com o espaço. Por isso, é quase como se fosse mesmo das pessoas. É nosso, claro, mas também é das pessoas.
E sentem que fazem parte dele, sentem esse sentido de pertença e de cuidado pelo espaço. E penso que, quando se fala em engarrafar a hospitalidade, parte da razão pela qual é uma pergunta difícil de responder é que não creio que seja possível fazê-lo. Mas diria que é quase impossível acertar se não nos importarmos com as pessoas que lá estão, se não cuidarmos delas e não tivermos em consideração quem são, o que querem, aquilo de que precisam e como vamos mantê-las felizes ao longo do tempo.
Acho que, sabem, é muito importante não nos deixarmos prender por clichés, rótulos e formas convencionais de fazer as coisas, mas é igualmente importante não reinventar a roda só porque sim. Fomos muito, muito claros quando trabalhámos, por exemplo, com um barman incrível na criação da nossa carta de bebidas. Dissemos: não queremos inventar bebidas que levem as pessoas a pensar «uau, nunca ouvi falar de nada assim».
Por isso, pode haver a tentação de inovar em excesso. E, Emmett, estou a citar-te à tua frente, mas o Emmett fala muito sobre o equilíbrio entre aquilo que desperta desejo e a inovação e, sim, sobre ter um ponto de vista próprio. A nossa carta não se limita a dizer Margarita, Espresso Martini, Aperol Spritz, mas também não estamos a tentar impor às pessoas uma experiência completamente nova e surpreendente. Por isso, temos uma bebida de que vai gostar quem adora um Espresso Martini. Temos uma bebida de que vai gostar quem adora uma Margarita.
E, por isso, acho que é a conjugação de todas essas coisas: que cenário estão a criar? Com que sensação querem que as pessoas saiam? Como estão a cuidar delas? Qual é o vosso ponto de vista — mas sem o imporem às pessoas. Tudo isso pode, de certa forma, servir de estrutura, mas não acho que seja possível engarrafar a fórmula. E até se vê que as mesmas pessoas, o mesmo grupo, podem fazer várias coisas com maior ou menor sucesso porque, a partir de certo ponto, a graça está precisamente em não se saber o que vai acontecer até as pessoas lá estarem.
JB: Exatamente.
EM: Penso que, para qualquer pessoa interessada em hotelaria ou, de um modo geral, na construção de uma marca, o importante é a ideia de uma sensação e da sensação com que queremos que as pessoas saiam. E todos os restaurantes, hotéis, seja o que for, têm de pensar na sensação que querem criar num espaço. Cada espaço é diferente. A química de um espaço pode levar-nos em qualquer direção. Uma biblioteca é muito diferente de restaurantes movimentados e transmite sensações muito diferentes.
E acho que, com o People’s, estávamos muito conscientes de que, como sabem, estávamos a sair da pandemia. Quer dizer, isto não é novidade nenhuma. As pessoas queriam passar tempo juntas. Acho que também estávamos a explorar uma nostalgia nova-iorquina que tínhamos perdido, aquela experiência do cordão de veludo no centro da cidade, recuperando o frio na barriga de chegar a uma porta sem saber se nos vão deixar entrar.
Este movimento em torno dos salões, do salonismo, é um movimento definido pela química particular que se cria num espaço e pela comunidade que com ela se identifica. E temos a sorte de dispor de um espaço relativamente pequeno. Penso que podemos responder de forma muito, muito direta às necessidades da nossa clientela. E foi ela que criou uma identidade neste espaço. Penso que, por nossa iniciativa, poderíamos criar um espaço e tentar orientar comportamentos através do design. Mas, em última análise, as pessoas vão fazer o que quiserem. Vai acontecer de forma orgânica, natural. A identidade do espaço e da marca vai surgir independentemente daquilo que nos propusermos alcançar.
E depois temos de nos adaptar e pensar: está bem, é isto que as pessoas querem. Tivemos de fazer algumas concessões e, por exemplo, sabem, quando entrei no People’s, tinha uma posição muito rígida em relação ao código de vestuário.
MHK: Ele queria casacos.
EM: E basta um exemplo, e admitirei de bom grado que estava enganado quanto a isso. Nova Iorque é muito diferente.
MHK: Mas ele apresenta-se sempre impecavelmente. E esse é um ponto importante: temos um papel a desempenhar, de certa forma, ao definir o padrão de comportamento que esperamos das pessoas.
JB: Portanto, se usar um blazer, é mais provável que as pessoas também usem, mas não são obrigadas.
EM: Exatamente. E é verdade. Entramos num espaço e, ao vermos toda a gente a usar uma determinada coisa, sentimos a pressão social para a usar também. Penso que o que torna Nova Iorque única é haver grupos de pessoas que entram numa sala firmemente decididas a fazer algo diferente. E temos de aceitar isso.
É isso que torna Nova Iorque verdadeiramente incrível. E quando alguém aparece no People’s com um conjunto que considero completamente tresloucado, tenho de respeitar o facto de essa ser a sua perspetiva, de se ter esforçado e de essa ser a sua identidade. E, desde que o conjunto tenha sido pensado ao pormenor, então, por favor, entre. No fundo, o que conta é o esforço.
MHK: O que conta é o esforço. E acho curioso, a propósito da forma de vestir em Nova Iorque, lembro-me de um amigo meu me ter dito, num tom algo passivo-agressivo, com uma ligeira provocação: «Vais adorar Nova Iorque porque, por mais que te esforces, nunca serás a pessoa vestida da forma mais extravagante na rua», porque existe mesmo essa sensação. Na verdade, acho que isso se está a perder um pouco em Nova Iorque neste momento.
E as redes sociais e a forma como todos consumimos as mesmas coisas fazem com que haja momentos em que, de repente, todas as raparigas na rua usam a mesma roupa, o mesmo penteado e os mesmos óculos de sol. Por isso, retomando a ideia do Emmett, adotamos uma versão diferente dos códigos de vestuário, que incentiva verdadeiramente essa personalidade e singularidade. E penso que, de um modo geral, houve aspetos em relação aos quais tivemos de fazer concessões, mas creio que é igualmente importante perceber quais são as vacas sagradas. Porque temos de estar sempre preparados para nos adaptar.
E vou dar apenas um exemplo de Londres. É uma questão muito prática, mas, na terça-feira, passámos algum tempo com a equipa daqui a definir a configuração da iluminação. Portanto, como deve estar a iluminação às 18h, quando as pessoas chegam? Como deve estar às 21h? E às 23h? E fizemos esse trabalho algo minucioso de decidir exatamente como queríamos que estivesse. E ontem estavam 35 graus em Londres. E todas as pessoas que entravam aqui diziam: «Meu Deus, está tanto calor lá fora. Não me dês um beijo.» E eu pensava: «Estou cheia de calor.»
E então decidimos baixar já as luzes, porque não podemos controlar como se sentem quando entram vindos da rua, mas podemos evitar que fiquem constrangidos por acharem que parecem transpirados. Por isso, pensámos: que se lixe o plano. Que se lixe este esquema de iluminação. Às oito, vamos baixá-las para o nível mínimo. E sentia-se que as pessoas relaxavam imediatamente e pensavam: «Pronto, ainda bem.»
Porque, normalmente, quando está calor, o corpo preocupa-se menos do que o cérebro. O cérebro fica mais constrangido do que o corpo propriamente dito. Estamos bem. Normalmente, não há problema. Mas o cérebro fica muito agitado.
Mas, da mesma forma, é preciso saber — e algumas das nossas conversas mais importantes ao longo do último ano e meio têm sido sobre aquilo com que não estamos dispostos a lucrar. E alguém me disse uma vez, ou talvez o tenha lido, já não me lembro: «Os nossos princípios só são verdadeiramente princípios quando nos custam alguma coisa.» E, quando abrimos o People’s, fizemo-lo com este princípio de acesso por convite mediante recomendação, sem procurar receitas apenas por uma questão de receitas e sem tentar encher o espaço demasiado depressa. Quando a nossa equipa começou a dizer-nos: «Bem, têm este espaço lindíssimo e não está cheio. Encham-no. Queremos as nossas gorjetas.» É assim que as pessoas são pagas em Nova Iorque. E foi uma contestação perfeitamente compreensível.
Era uma coisa do género: tragam pessoas, marketing, marketing, marketing. E nós dissemos: «Não, deem-nos um pouco de tempo, porque esse era um dos princípios sagrados dos quais não nos iríamos desviar. Portanto, sim, mudaremos as luzes, mudaremos o menu, ajustaremos a música. Iremos adaptar-nos e responder à forma como as pessoas querem interagir com o nosso espaço, desde que nos mantenhamos absolutamente firmes em relação a certas coisas.»
JB: Acho que já o descreveste antes. Talvez seja uma designação imperfeita: um clube de membros sem filiação. Acho que é um fenómeno muito interessante, porque um amigo meu, de Melbourne, que dirige uma revista chamada Broadsheet, veio para Londres, está a instalar-se aqui e é ótimo. E ele disse: «Percebo os clubes de membros, em que é preciso ser membro para entrar; percebo os pubs e os restaurantes, onde se pode fazer uma reserva ou simplesmente entrar. Às vezes é difícil conseguir uma reserva, mas há este estranho meio-termo, com espaços que não são clubes de membros, mas têm membros, onde não se consegue entrar e é preciso conhecer alguém, ou há um número secreto de WhatsApp — todas estas coisas estranhas.»
E ele descreveu-a, de certa forma, como «uma cidade de portas fechadas», porque, para quem vinha de fora, a sensação era: eu não conhecia aquela pessoa de há anos. Então, como é que consigo o número de WhatsApp do, sei lá, Fat Badger ou algo do género? E isto é claramente uma reação contra as recomendações algorítmicas, que fazem com que todos saibamos tudo sobre tudo. E assim as pessoas acorrem em massa a um sítio, como dizes, provavelmente só para tirar a fotografia, mas é um espaço interessante para explorar. E talvez, de certa forma, fosse assim que as coisas funcionavam antigamente.
MHK: E deixa-me tão triste ouvir essa expressão, «uma cidade de portas fechadas», porque acho que estou a citá-lo novamente, desculpe. Mas o Emmett disse uma vez: «Não somos exclusivos só por sermos exclusivos.» Uma noite, fiquei à porta do people’s porque pensei: «Quero saber como é isto e aquilo com que o Frankie tem de lidar aqui fora todas as noites.»
JB: Convém dizer que o Frankie é o teu porteiro.
MHK: O Frankie faz parte do projeto desde uma fase muito inicial.
JB: Que nome lhe deu a New Yorker?
MHK: O porteiro mais exigente de Nova Iorque.
EM: Bem merecido.
MHK: Bem merecido.
EM: Ontem à noite, estávamos, sabem, e, para ser justo, está neste momento um calor desumano em Londres. E já tivemos alguns clientes que apareceram de calções e temos algumas regras bastante rígidas, sabem, quer dizer, falando de vacas sagradas, os calções são uma delas e os bonés de basebol são outra.
MHK: A menos que seja um dos nossos.
EM: Mas isso é de propósito e pela diversão. Ontem à noite, apareceu um cliente de calções e o Frankie disse-lhe: «Infelizmente, não podemos deixá-lo entrar de calções.» E houve ali alguma troca de palavras. O Frankie já está tão habituado a todo o tipo de respostas quando recusa a entrada a alguém. Depois disse: «Bem, sabe, se os calções fossem uma saia, não haveria problema.» Então, este senhor foi buscar uma tesoura, sentou-se no passeio e cortou os calções à mão até deixar toda a zona entre as pernas aberta. E foi-
MHK: Um kilt.
EM: -Faz lembrar um pouco um kilt. Sim, parece mais um kilt.
MHK: Parece mais uma espécie de kilt do que uma saia.
JB: E ele conseguiu entrar?
MHK: E conseguiu.
EM: Mais uma vez, esforço.
MHK: Esforço.
JB: Sim. Se estiveres disposto a sacrificar o reforço dos teus calções. Creio que esse é o termo correto.
MHK: Sim, menos reforço entrepernas, mas mais experiência.
JB: Faz-me lembrar, talvez, aquela cena de Mean Girls, em que ela recorta uns buracos naquilo e depois aquilo vira moda.
MHK: Isto vai pegar moda. Se queres passar pelo Frankie, tens de andar sem reforço.
JB: Posso usar calções sem reforço entrepernas esta noite?
MHK: Sem dúvida.
JB: O problema é que, nesse caso, não seria orgânico. E seria uma espécie de esforço preguiçoso. Pois. Bem, sei que isso já foi uma coisa. Tenho de fazer as coisas à minha maneira.
MHK: Acho que te safavas com isso.
JB: Obrigado.
MHK: Acho que isso passaria despercebido.
MHK: Tenho pernas fortes.
EM: Veremos.
MHK: O Frankie diz sempre que não quer ver os joelhos de um homem. Sobretudo à noite.
JB: Meu Deus, não. Não vou.
EM: Joelhos e dedos dos pés.
MHK: Joelhos e dedos dos pés.
JB: Dedos dos pés?
EM: Sim.
JB: Os dedos dos pés estão bem.
MHK: Dedos dos pés de homens.
JB: Bem. Sim.
MHK: Não gosto de ver os dedos dos pés dos homens.
JB: Não gosto de ver os dedos dos pés dos homens.
MHK: Qual é aquela frase fantástica em Succession? «Sales out, nails out.» O primo Greg fica muito chateado porque ainda não fez a pedicure. Não, regra geral, é melhor manter os dedos dos pés dos homens escondidos. Estávamos a tentar encontrar uma frase que pudéssemos usar para relembrar as pessoas do código de vestuário. E eu disse que só porque o sol está a brilhar não significa que os joelhos tenham de estar à mostra.
JB: É bem verdade.
MHK: E encontrei uma forma mais delicada de o dizer: «se achas que é demasiado informal, então é.» De certa forma, essa ideia de portas fechadas deixa-me triste. Porque, mais uma vez, acho que era precisamente contra isso que queríamos reagir. Sim, não é um vale-tudo. É preciso ser convidado ou, de algum modo, introduzido na comunidade. E, a este respeito, se não é por querermos ser uns idiotas, é para proteger um espaço de ser tomado de assalto, de perder essa familiaridade, de perder.
Mesmo aqui, esta semana, há pessoas que se cruzam com outras que não sabiam que estariam cá e que não viam há anos. Isso não seria possível se houvesse apenas um fluxo constante de pessoas. Mas também estávamos firmemente decididos a não ser um clube exclusivo para membros, por toda uma série de razões.
Mas o que me fascina e torna o papel de Frankie tão importante — e a razão pela qual precisamos que Frankie não seja apenas uma espécie de robô à porta — é o facto de essa porta estar em constante evolução. Portanto, se o seu amigo viesse a Nova Iorque, aparecesse no People’s, tivesse uma conversa agradável com Frankie, possuísse aquele je ne sais quoi, fosse educado e parecesse descontraído e interessante, entraria e essa porta abrir-se-ia, porque o seu amigo teria conseguido entrar.
JB: Ele conseguiria entrar logo à primeira? Imaginemos que eu não vos conhecia, ia a Nova Iorque e usava próteses para não saberem quem eu era — não que eu próprio saiba quem sou. E ia ter com ele. Seria possível entrar logo à primeira com o Frankie?
MHK: Sim. Sendo encantador e simpático como és? Aliás, foi assim que conheci o Frankie. O Frankie estava à porta de outro sítio. Isto já foi há seis anos. E eu apareci, o Frankie simplesmente... conversámos por um instante.
E ele disse: «Gosto da tua energia. Como te chamas?» E foi assim que começou a nossa amizade. Portanto, ele é extremamente recetivo. Não temos uma espécie de folha de cálculo do Excel. E se não estiveres… como era aquela música dos Klaxons? Se não estás na lista, não entras? Damos, de facto, prioridade às reservas. É verdade. E isso deve-se, em parte, ao facto de querermos respeitar os vizinhos e evitar grandes multidões no exterior.
Damos, de facto, prioridade às reservas, que chegam, de certa forma, através de recomendações da comunidade. Mas sim, o grande objetivo de ter o Frankie é permitir que as pessoas abram essa porta e que ela não esteja, por assim dizer, permanentemente fechada. A ideia de um clube de membros sem filiação era eliminar alguma da rigidez do modelo tradicional, em que cada membro só pode levar três convidados.
EM: E também evita que se torne monótono. Permite-nos manter o dinamismo, continuar a evoluir e receber caras novas. Creio que existe uma certa tensão entre trabalhar na área da hospitalidade, querer ser hospitaleiro e, ao mesmo tempo, querer construir uma comunidade, certo? Queremos poder dizer: venham, venham todos. É esse o espírito do que fazemos.
MHK: Mas é literalmente impossível.
EM: Mas é impossível. Pois, é como se estivéssemos a lidar com quatro paredes que têm... enfim, há normas de segurança contra incêndios em Nova Iorque por algum motivo.
MHK: E lembram-se daquele tipo? Quando eu estava à porta, ele veio ter comigo. Nunca o íamos deixar entrar porque estava completamente... apareceu podre de bêbedo. E nós gostamos que as pessoas se divirtam e passem um bom bocado, mas aquilo era...
JB: Ele estava mais do que mal.
MHK: Já estava mais do que mal antes sequer de entrar. E isso nunca é bom sinal. É como quando alguém já está demasiado bêbedo sem sequer ter comprado uma bebida: diz-se simplesmente que não. Portanto, ele nunca iria entrar. Mas fui muito educado. Há um milhão de maneiras de dizer que não. E algumas são mais simpáticas do que outras. Portanto, estava a ter uma conversa perfeitamente... Sou inglês. Afinal de contas, gostamos de agradar aos outros. Estou a ser muito simpático com este tipo.
E estou a frisar isto porque, a seguir, ele vira-se para mim, olha-me nos olhos e diz: «Dá-te prazer desiludir as pessoas, não as deixar entrar?» E eu respondi: «Agora até começa a dar, porque estás a ser um idiota.»
E temos este membro incrível, mesmo incrível, da nossa equipa da porta, o Jay, que está lá fora com o Frankie e que, apesar de ser bastante jovem, tem a calma e a confiança de alguém muito mais velho. E é bastante maior do que eu, muito mais alto do que eu. E estou a ter este tipo de interação com este homem e é tão bom porque ele está simplesmente ali.
E ele pergunta: «Temos aqui algum problema?» Por isso, temos de preservar a nossa integridade e tranquilidade e agir. Quando dizemos que não, temos de o dizer de uma forma com a qual nos sintamos confortáveis. Mas temos mesmo de dizer que não. Quanto à observação do Emmett, não é viável.
JB: E, já agora, quando penso no que o Nick estava a dizer sobre isso, acho que havia mais curiosidade do que tristeza, porque, em muitos aspetos, era assim que as coisas funcionavam para muita gente — mesmo nos anos 90, no restaurante italiano do seu bairro, talvez não conseguisse mesa se lhes ligasse para o telefone fixo e eles reconhecessem o seu número. Diziam: «Ah, eu só…»
MHK: E isso teve um papel muito importante quando abrimos e as pessoas diziam: «Uau, falem-nos deste novo modelo tão interessante que vocês têm.» Nada disto é novo. O Studio 54, o Beatrice, o Waverly — estes espaços não tinham membros, mas também não eram propriamente um vale-tudo no Dorcia e no Resi. Há uma intencionalidade e a criação de uma comunidade, mas eu dizia: nós não inventámos merda nenhuma.
EM: E, já agora, sabem, aquela coisa de «ah, aquela pessoa passou à frente na fila» ou assim, o tipo de pessoa que entra simplesmente num sítio enquanto estamos à espera na fila e pensamos «que idiota» ou algo do género. E talvez isso seja verdade neste sítio em particular, mas, no People’s, há clientes habituais que entram simplesmente, enquanto cá fora há multidões à espera. E isso dá a impressão de que somos exigentes ou seletivos, ou isto ou aquilo, mas, na verdade, não é nada de mais.
MHK: Sim.
EM: Esta pessoa que entra simplesmente à vontade fá-lo porque está lá todas as semanas, sabe, conhece a nossa equipa, é amiga da casa.
MHK: A melhor maneira de entrar sem dificuldade num sábado à noite é aparecer numa terça-feira, dizer «Gostava de beber qualquer coisa», ser educado com os funcionários, enfim, dedicar algum tempo e esforço e depois ir lá.
As pessoas que ficam mesmo furiosas por não poderem simplesmente entrar à vontade na primeira vez que aparecem num sítio às onze da noite, quando estamos à pinha, francamente, não são as pessoas que queremos, porque há nisso um sentimento de que têm esse direito. Eu nunca tive essa atitude. Toda a gente já passou por um momento em que não a deixaram entrar. E há uma ótima frase do Frankie: ele percebe logo pela forma como alguém reage, mesmo sem lhes dizer que não, limitando-se a dizer: «Pode esperar um minuto? Estou só a falar com alguém.» Ele diz sempre que percebe logo, porque há um tipo de pessoa na fila que nunca enfrentou adversidades e a quem nunca disseram que não. De qualquer forma, não queremos essas pessoas, porque, sabem que mais? Provavelmente vão ser mal-educadas com os funcionários. Provavelmente não vão deixar uma boa gorjeta, tudo é um problema, os outros clientes são um problema, a música não presta. Por outro lado, as pessoas que dizem: «Compreendo, muito obrigado. Tento noutra altura» têm muito mais probabilidades de acabar por ser chamadas de volta.
EM: Ou retiradas do espaço.
MHK: Há que ter algum decoro e bom senso.
EM: Como num bar normal, há obviamente um limite para o estado de embriaguez em que se pode ficar; se o ultrapassar, será expulso. Se for mal-educado com os nossos funcionários, será posto na rua.
MHK: Ah, imediatamente, e sem poder voltar.
EM: Sim, como o Fulano, sabem, «Porque é que fui expulso? Não estava a fazer nada.» E eu digo: bem, estavas a ser mal-educado. E talvez não te apercebas disso. Toda a gente à tua volta consegue ver isso.
JB: Talvez este seja um momento de aprendizagem, como se costuma dizer. Talvez devêssemos aprender com isto.
EM: E acreditem em mim, quando lá forem, quando conhecerem o Jay, que faz parte da nossa equipa da porta e é o homem mais querido de sempre, se o Jay entrar para vos pedir que saiam, é porque cometeram um erro grave.
MHK: Sim, fizeste asneira.
EM: Prometo que não tem nada que ver com, sei lá, beber demasiado ou isto ou aquilo.
MHK: Normalmente, fica tudo estragado.
EM: E esta é, mais uma vez, a vantagem de não sermos um clube de membros, porque podemos podar a árvore como e quando quisermos. Não devemos nada a ninguém. Tudo o que pedimos é que apareçam e contribuam.
MHK: E, como as pessoas sabem disso, comportam-se melhor.
EM: Não há qualquer direito adquirido.
MHK: E eles esforçam-se com os outros convidados. E mesmo aqui, acho que disse ao Emmett que um dos meus grandes receios de trazer o People’s para aqui é que isto fica um pouco caótico. Já me aconteceu dançar em cima de um sofá. Mas a questão é que nós-
EM: Muitas vezes.
MHK: Bastantes vezes. Depende da roupa. Mas o interessante é que não tenho filhos, embora tenha amigos suficientes com filhos para ter acabado por assimilar alguns dos comentários deles. A melhor forma de o descrever é como a diferença entre cuidar dos nossos próprios filhos e tomar conta dos filhos de um amigo.
E há qualquer coisa em estar neste espaço que faz com que, sabem, na casa das pessoas, as piores pessoas que se pode irritar sejam eu e a Emma — na verdade, a pior pessoa para irritar seria o Frankie. Ao passo que aqui há aquela preocupação de danificar alguma coisa num espaço que, tecnicamente, não é nosso. Mas, na verdade, como sempre, as pessoas tratam-no com o máximo respeito.
Porque acho que há uma reciprocidade e uma espécie de acordo mútuo que se estabelece quando entram aqui e são recebidos com carinho, porque foram convidados, fizeram o esforço de vir, estão felizes por estar aqui e querem ficar. Por isso, não ficam-
EM: Quando se é cliente habitual, sente-se que aquele espaço também nos pertence. Não se quer estragá-lo, porque levamos os nossos amigos lá.
JB: Sim, voltamos para a semana.
EM: Sim.
JB: Ora aí está.
MHK: Ora aí está.
JB: Bem, ainda tenho mais um milhão de perguntas, mas acho que já ultrapassámos bastante o tempo previsto. Então, como é que devemos terminar? Poder aos povos? Há alguma expressão que vocês costumem usar?
EM: Como é que ele sabe o nosso segredo?
JB: Qual é o vosso lema? Costumam reunir-se antes de cada noite e dizer: Emmett, lembra-te?
MHK: Porta-te bem.
EM: Porta-te bem.
MHK: Ah, sim. O lema da Frankie é muito simples: «hoje não». Só porque estávamos a falar desse assunto. Sinceramente, o que provavelmente mais dizemos uma à outra é algo como: adoramos isto. Isto é divertido. E não é uma resposta assim tão aborrecida, mas é bastante honesta e sincera.
JB: É mesmo muito bonito. É tudo o que se pode desejar, não é?
MHK: Muitas vezes, mandamos mensagens um ao outro às duas da manhã, quando estamos, tipo, a voltar para casa de táxi depois de uma noite bem-sucedida, só a dizer: «Ainda estou feliz. Ainda estou feliz. É uma sensação tão, tão boa.» E, sabem, sim, poder ao povo.
EM: É simplesmente, sim, sobretudo gratidão.
MHK: Poder ao povo. Ou apertem os olhos, mas nós ganhamos.
EM: É só gratidão, sim. Quer dizer, é incrível poder fazer isto e ver as pessoas reagirem. Sim, é mágico. É muito bom.
JB: Excelente. Antes de terminar, apenas um último lembrete sobre a adesão ao Clubhouse, a nossa forma de lhe dar acesso a uma vasta gama de benefícios em todo o universo da Gentleman’s Journal, incluindo a entrega em sua casa de duas edições da revista por ano, acesso integral a todos os nossos conteúdos pagos, convites exclusivos para eventos reservados a membros e uma newsletter semanal enviada para a sua caixa de correio eletrónico todos os fins de semana.
This episode has been recorded at Nellys underneath Simpsons in the Strand








