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Jordan Stephens, dos Rizzle Kicks: «A verdade é, por vezes, bastante louca…»

Jordan Stephens, dos Rizzle Kicks: «A verdade é, por vezes, bastante louca…»

O rapper e autor britânico fala abertamente sobre o preço da notoriedade pública, as amizades masculinas e aprender a chorar

O novo livro de Jordan Stephens é um livro de memórias que se lê como um thriller. Frases curtas. Presente do indicativo. Capítulos enigmáticos. A sensação de se estar a ser arrastado para um desfecho dramático e aterrador no cerne da narrativa — um episódio de infidelidade assinalado logo no início. É uma viagem empolgante, que se torna ainda mais emocionante por duas razões: a total franqueza de Stephens acerca de si próprio e das pessoas que lhe são próximas («Limitei-me a dizer à minha mãe e ao meu pai que é importante ser honesto e dizer a verdade, porque, caso contrário, qual é o objetivo?»); o facto de estarmos aqui a falar de Jordan Stephens.

Muitas pessoas da minha idade sentirão que, de certa forma, cresceram ao lado de Stephens – uma das metades da adorável sensação adolescente Rizzle Kicks, cuja rápida ascensão à fama (venderam mais de 600 000 cópias do primeiro álbum, tornando-se uma atração principal de um dia para o outro) foi seguida de um certo amadurecimento aos olhos do público (a certa altura, nomeadamente, através de um artigo que se tornou viral no The Guardian sobre masculinidade, no auge do escândalo #MeToo). Tudo isto enquanto «tentava desesperadamente seguir um grupo de completos desconhecidos até à casa de uma pessoa moderadamente famosa», escreve. «Só para consumir mais drogas. E alimentar possibilidades vazias.»

Saber que esta montanha-russa não foi nada simples nem tranquila não é surpreendente — mas é esclarecedor (e muitas vezes útil a nível pessoal) acompanhar Stephens a lidar com tudo isto, em tempo real, nas páginas do livro. Talvez seja isso que torna Avoidance, Drugs, Heartbreak & Dogs uma proposta tão cativante para jovens confusos e frustrados — mesmo que já tenham 34 anos.

Image: Getty

“Quando os Rizzle Kicks começaram, eu estava com o meu melhor amigo, bebíamos imenso álcool e tínhamos mais dinheiro do que alguma vez poderíamos ter sonhado. O hedonismo daqueles primeiros quatro anos foi fantástico. Estaria a mentir se dissesse que não foi divertido, mas aquilo de que tenho falado desde então é da realidade de que todos os momentos de euforia têm um preço. A pressão que acompanha a notoriedade pública, sem uma compreensão adequada de nós próprios, vai-se acumulando por completo.”

Tornámo-nos famosos muito rapidamente. Estávamos literalmente a tocar sem público e, de repente, a Radio 1 passou a nossa música e, um mês depois, tudo mudou. Tive uma vida bastante louca, conheci muitas pessoas, adoro aprender e sou muito curioso. Mas, sinceramente, se tiver um filho no futuro, vou desencorajá-lo ativamente de procurar atenção aos vinte e poucos anos. Acredito mesmo que uma pessoa tem um pouco mais de hipóteses se esperar algum tempo, se se conhecer a si própria e se viver um pouco antes de ser lançada no meio de tudo isto.

A perda de anonimato que acompanha a fama não deixa de ser uma perda – há uma espécie de luto por sentirmos que nunca mais poderemos voltar a passar despercebidos. Mas o que é realmente tramado no poder e na notoriedade, a meu ver, é serem tão voláteis. São uma moeda de troca concreta. Entramos num mundo onde somos avaliados com base no que alcançámos ou nas pessoas com quem nos relacionamos. Por isso, se estamos em alta, é ótimo, mas, meu Deus, há sempre alguém mais importante. Sempre.

Image: Getty

Acho que «brutal» é provavelmente a palavra mais usada em todas as críticas que recebi ao livro. Não porque seja predominantemente brutal para com os outros, mas para comigo. Tenho de o ser. Um dia morrerei, os meus pais morrerão e todas as pessoas envolvidas nisto morrerão. E depois alguém continuará a ter este livro e ninguém pensará que omiti alguma coisa só porque estava um pouco preocupado com a possibilidade de a minha mãe ficar aborrecida durante uns dias. Acho que o mais contundente no livro é simplesmente o facto de a verdade ser, por vezes, absolutamente tresloucada.

Tantas conversas que se têm em público, mesmo com toda esta franqueza nas redes sociais, continuam, estranhamente, a ser bastante tabu. Acho que as experiências masculinas — os pensamentos heteronormativos e obsessivos, a estupidez ou a vulnerabilidade — não são verdadeiramente analisadas. Acho que ou são transformadas em motivo de chacota ou são vilipendiadas.

Culturalmente, não há referências para a amizade masculina ou para as dificuldades emocionais entre homens sem que sejam motivo de chacota ou façam parte de uma história extraordinária, como um enorme império de tráfico de droga ou uma guerra. A única referência que tínhamos no Reino Unido para um jovem em crescimento era The Inbetweeners. Era tão engraçado, mas, a sério? A única referência cultural para os homens são três idiotas a rirem-se dos próprios pénis?

Falar dessa coisa de os homens chorarem [a ideia de que os homens deviam chorar mais], nesta altura, parece-me simplesmente ridículo. É absurdo que isso sequer seja uma questão. Todas as lágrimas ficarão dentro de nós para sempre se não as deixarmos sair. Se não chorarmos, teremos dificuldades na vida. Digo isto com uma enorme empatia pelos homens que têm dificuldade em chorar. Cheguei a um ponto em que já fiz terapia e, quando passo por alguma coisa, consigo senti-la. E continuo a desejar ter aqui um canal aberto para simplesmente pôr tudo cá para fora, porque assim não teria de andar tão stressado. Ainda me custa muito chorar, mas, meu Deus, o alívio que sinto quando consigo é incrível.”

Este artigo foi publicado na edição de outono de 2024 da Gentleman's Journal. Saiba mais aqui...

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