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Nick Blood fala sobre tacos, tatuagens e o seu novo papel em Hit Point

Nick Blood fala sobre tacos, tatuagens e o seu novo papel em Hit Point

O ator britânico fala do seu amor por Londres, da música que o marcou — e de como o seu apelido lhe tem causado bastantes problemas em Los Angeles...

Nick Blood tem registos permanentes. Na verdade, tem vários. Para começar, há as tatuagens. Uma delas, partilhada com os irmãos e as irmãs, é o símbolo alquímico do sangue, tatuado num vermelho apropriadamente violento. Uma segunda, na parte interior do braço, diz «Still Ill», uma referência à emblemática canção dos The Smiths — e a outro dos registos de Blood: uma coleção de vinis dos The Stone Roses, The Cure e outros, sempre a rodar.

E o seu terceiro registo? Esse seria a carreira de Blood: um cadastro de papéis ligados às forças da autoridade, que levaram o ator a alternar entre polícia e criminoso vezes suficientes para encher uma pilha inteira de registos policiais.

O seu primeiro papel profissional como ator surgiu em 2009, no papel de um raptor em The Bill. Mas, desde então, Blood tem estado do lado certo da lei — na maior parte das vezes — em Slow Horses, Babylon e The Day of the Jackal. Acabou recentemente de interpretar um agente da polícia coercivo em Sting, no Young Vic, «muito, muito intenso e bastante sombrio — mas brilhantemente escrito», e pode vê-lo atualmente no papel de um detetive da Polícia Metropolitana na nova série de suspense Hit Point.

Uma série de seis episódios cheia de confiança, que remexe nos podres do submundo londrino com piadas certeiras, músicas bem escolhidas e uma dupla de peso formada por Blood e pela sua coprotagonista, Saffron Hocking, de Top Boy. É uma série de ritmo acelerado, mas divertida, e, segundo Blood, está o mais longe possível do «policial acolhedor». «Adoro coisas assim», afirma, «que, em termos de tom, decorrem num mundo ligeiramente exacerbado, mas têm personagens muito ricas. Vê-se isso em Breaking Bad. Tivemo-lo em Slow Horses.

«Porque, na maioria das séries policiais», acrescenta Blood, «toda a gente é tão eficiente. Nesta, porém, há uma cena em que estamos a arrastar um objeto muito pesado por um caminho junto a um canal. Num filme de ação, seria um tipo a levá-lo ao ombro, a correr pelo caminho. Aqui, são três tipos, ofegantes, que têm de fazer pausas. Parece um pouco mais credível.»

Antes de a série estrear, Blood e a equipa organizaram uma sessão especial na BAFTA, à qual assistiram alguns antigos detetives da polícia. «E eles disseram especificamente que a série retratava tudo muito bem, sobretudo a sensação de estar numa operação de vigilância — passar quatro horas na conversa, a comer, até que se atira o kebab pela janela e se arranca!»

O primeiro episódio, em particular, é praticamente um longo almoço: hambúrgueres, batatas fritas, sopas de massa, batidos e uma caixa de ovos com duas gemas. Comer em cena pode ser uma maldição, diz Blood — algo que aprendeu num dos seus primeiros trabalhos como ator. «Estávamos a filmar em Shoreditch, todos a tomar o pequeno-almoço», conta, entre risos. «Decidi comer uma salsicha, como referência fálica. Mas, como era novato, não percebi que íamos fazer 40 takes. Por isso, no fim, tinha ao meu lado um balde cheio de salsicha mastigada. Aprendi mesmo a lição.»

Ainda assim, o trauma com a salsicha não lhe tirou o apetite. Atualmente, um dos seus restaurantes preferidos é o Homies on Donkeys, um espaço mexicano em Leytonstone e, na opinião de Blood, a melhor taquería da capital. «O chef é de Tijuana. É mesmo autêntico.» Durante muitos anos, Blood viveu em Los Angeles, onde trabalhou em séries como Euphoria e Agents of S.H.I.E.L.D da Marvel. Conheceu a mulher, a modelo Emory Ault, em Los Angeles, «e uma das coisas que mais gostávamos de fazer por lá era ir a Highland Park, comprar tacos nesta pequena roulotte e depois descer a pé a York Boulevard até ao Donut Friend».

Blood adorou o tempo que passou em Los Angeles — apesar de o seu nome ter o hábito de causar confusão. «Enquanto crescia, era uma bênção e uma maldição, porque as pessoas não se esquecem dele. Mas, quando me mudei para os Estados Unidos, alguém começou a seguir-me no Instagram. E todas as fotografias dessa pessoa mostravam maços de dinheiro ou esconderijos cheios de erva e armas. Fiquei a pensar: o que é isto tudo? Mas depois percebi que ele era um Blood — um Blood a sério

“É uma bênção e uma maldição…”

Não é a primeira vez que o apelido de Blood é confundido com uma referência a um gangue. O seu instrutor de condução nos Estados Unidos disse-lhe que tinha «uns primos que não iam gostar nada disso» e, certa vez, conheceu o skater Antwuan Dixon — «uma figura bastante intimidante, com bem mais de um metro e oitenta e a cara coberta de tatuagens» —, que se apresentou como «Antwuan Dixon, OG dos West Coast Crips».

«E eu fiquei tipo — uau, então não vais gostar do meu nome! E ele ficou logo com uma expressão fria. Perguntou: “Como te chamas?” Pensei: não mostres medo, por isso disse Nick Blood. Ele começa a chegar-se a mim e diz: “Blood? És um Blood?” Parecia aquela cena de um filme em que toda a gente fica em silêncio. Pediu-me para ver a identificação, então tirei-a e ele começou a dizer: “Andas a vir ao meu bairro?” Estava só a meter-se comigo e começou a rir-se, mas eu fiquei ali, com o suor a escorrer-me pelas costas.»

Depois da pandemia, Blood regressou a Londres, o que se traduziu em mais trabalho nos palcos — incluindo Muito Barulho por Nada para a Royal Shakespeare Company, no ano passado —, bem como em séries de grande orçamento como Andor. Hit Point é talvez a sua mais evidente carta de amor e ódio à cidade, com os locais e as instituições londrinas a assumirem grande parte do protagonismo. Mas, se a comida ocupa o balcão de uma ponta à outra, o mesmo acontece com a música. Nina Simone dá o pontapé de saída, seguida de perto pelos Ezra Collective e por um fluxo constante de soul. A personagem de Blood chega mesmo a ser descrita como um «homem de soul» no primeiro episódio. Será que o mesmo se aplica ao ator?

«Tenho gostos bastante ecléticos», afirma. Recentemente, viu os The Streets ao vivo, bem como os Geese — «que adoro. São a primeira banda de rock nova, em muito tempo, de que me tornei fã.» Mas a primeira obsessão musical de Blood surgiu quando tinha seis anos e Elvis entrou na sua vida a abanar as ancas. «Fiquei um pouco obcecado, comecei a pentear o cabelo com um topete e essas coisas. Mas, aos 11 anos, pouco antes de Kurt Cobain morrer, comecei mesmo a gostar de Nirvana.»

O irmão de Blood gostava de heavy metal, pelo que esse género também acabou por entrar na mistura — a par de uma veia punk. E depois vieram os Beastie Boys. «O que, penso eu, para um miúdo branco dos subúrbios, foi algo enorme. Cheguei mesmo a conhecer o [baterista] Mike D há dois anos. Disse-lhe que tinha sido graças a ele que eu, e provavelmente imensas outras pessoas, descobrimos todo um novo mundo da música.»

Durante as férias de verão da universidade, Blood trabalhava numa pequena loja de discos independente perto de Aylesbury, onde cresceu. «Havia simplesmente de tudo. Mas é por isso que tenho gostos tão abrangentes — lembro-me até de, ainda miúdo, ouvir muito os The Beatles no carro com o meu pai. Ele era de Liverpool.»

Em 2011, Blood interpretou Stuart Sutcliffe, o «quinto Beatle», na peça Backbeat. «Quando surgiu a oportunidade — o meu agente disse que era no West End — perguntei: é um musical? É que não canto nem danço e não sabia tocar baixo. Mas depois pensei melhor, porque o meu pai tinha morrido menos de um ano antes e, na verdade, tinha crescido a duas casas de Stuart Sutcliffe. O seu motivo de orgulho era ter jogado futebol com um Beatle. Por isso, atirei-me de cabeça.»

Agora, Blood está à espera do primeiro filho — que, sem dúvida, também terá algumas histórias fantásticas sobre o pai. «Neste momento, estou a tirar algum tempo para mim», diz, acenando com a cabeça. «Mal podia esperar por terminar a peça, para que agora eu e a minha mulher possamos simplesmente preparar o ninho e eu possa falar com a barriga dela.»

Deixando o novo rebento de Blood de lado, há uma última história de família que o ator faz questão de contar: o grupo familiar das tatuagens poderá em breve ganhar mais um membro.

«Sabem aquela tatuagem do símbolo alquímico? Aquela que eu disse que eu e todos os meus irmãos temos?», diz Blood. «Bem, a minha mãe fez 75 anos na semana passada — e pensava que íamos fazer-lhe uma igual! Eu disse: espera, queres mesmo fazer uma tatuagem? Por isso, acho que vamos marcar-lhe uma sessão!»

Mais um registo permanente, portanto. A boa notícia é que, após 15 anos a construir uma carreira que o levou de Londres a Los Angeles e de volta, passando por polícias, criminosos, Shakespeare e super-heróis, o percurso de Nick Blood está longe de chegar ao fim.

Hit Point está agora a ser transmitida na U&Dave e na U. Para mais entrevistas com atores, leia a nossa conversa com Tom Blyth…

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