
Fabien Frankel percebeu a missão
Seja qual for o papel, o ator britânico — e mais recente escolha de eleição da HBO — entrega-se sempre de corpo e alma: armadura, sotaque e tudo o mais. Conversámos com Frankel na Penthouse Marylebone Square, da Concord London…
- Texto de: Jonathan Wells
- Fotografia: Rhys Frampton
- Estilismo: Zak Maoui
- Preparação: Nadia Altinbas
Os nomes aliterativos raramente vingam em Hollywood — a menos, claro, que se seja o saudoso, grande (e incomparável) Robert Redford. De um modo geral, a cidade do cinema há muito que perde a paciência com os seus trava-línguas quando se depara com iniciais de sonoridade semelhante. Veja-se, por exemplo, Marion Morrison. Nunca ouviu falar dele? Claro que não. Em 1930, os manda-chuvas do estúdio decidiram que o nome aliterativo soava demasiado «brando» e pouco «sério» para um homem destinado a impor-se em grande no mundo dos westerns — e não tardaram a rebatizá-lo como John Wayne.
Fabien Frankel, ao contrário do cowboy rebatizado, manteve bem firme no coldre o nome que recebeu à nascença — direto ao assunto, com dois efes e tudo. Apropriadamente, o nome do seu alter ego mais conhecido — House of the Dragon —, o imponente fazedor de reis Sor Criston Cole, partilha a mesma cadência repetitiva e ritmada. E, quando a série estreou, em 2022, tornou-se a estreia mais vista de sempre em streaming na história da HBO. Toma lá, John Wayne. Afinal, quem é agora o «sério»?
«Já alguma vez viu Mark Rylance a interpretar Shakespeare?», pergunta Frankel — já que falamos de coisas sérias. O ator regressou recentemente a Londres após uma breve passagem pelos EUA e está a explicar o difícil lirismo pseudomedieval dos seus diálogos em House of the Dragon. «Quando Rylance interpreta Shakespeare», continua, «mesmo que nunca tenha lido a obra ou não tenha grande inclinação académica, consegue perceber a história e tudo o que ele diz. Os grandes atores conseguem fazer isso. Mas eu tenho muita dificuldade em aceder a essa linguagem.»

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Frankel admite que se tem tornado mais fácil a cada regresso a Westeros. Sempre que o ator veste a armadura e volta a montar a cavalo (com um ar tão heroico quanto Wayne alguma vez teve), sente-se mais à vontade na pele da sua personagem. «Mas, até pôr os pés no plateau e vestir o guarda-roupa, a personagem nunca está totalmente presente. É frequente as pessoas dizerem: “Ah, encontrei a minha personagem três meses antes das filmagens!” Mas não consigo compreender isso de todo. Eu encontro-a muito mais tarde.»
Ter jeito para sotaques também ajuda. Nascido em Chelsea, filho de mãe franco-italiana e de pai inglês — que também era ator —, Frankel tem as cordas vocais bem afinadas e domina dezenas de dialetos. (Mais um ponto para Frankel no duelo com Wayne: a estrela dos westerns era conhecida pela sua falta de jeito para sotaques.) «Sabe, não sei se alguma vez falei com o meu próprio sotaque no ecrã», diz o ator. «Mas acho isso verdadeiramente libertador. Sinto-me muito mais à vontade a usar o sotaque de outra pessoa. É como ir a uma reunião de fato — é uma camada protetora.»
«Não sei se alguma vez falei com o meu próprio sotaque no ecrã...»
A história familiar de Frankel também funciona como uma espécie de rede de segurança para os seus malabarismos verbais — uma ascendência que se estende da Rússia à Polónia, da Índia ao Iraque. Teve também formação académica. Frankel frequentou duas das mais prestigiadas escolas de teatro britânicas, a Royal Academy of Dramatic Art (RADA) e a London Academy of Music & Dramatic Art (LAMDA), onde teve de dominar quatro sotaques distintos. Escolheu o espanhol, o sulista norte-americano e o francês — que usou com grande eficácia na sua primeira aparição televisiva, The Serpent.
«Para o meu quarto sotaque, escolhi o ítalo-americano», acrescenta Frankel, «o que, obviamente, deu imenso jeito em Task». No seu mais recente papel televisivo, o ator interpretou Anthony Grasso, um detetive de uma força especial dividido por conflitos internos, no recente drama policial da HBO. Na série, o supervisor de Grasso no FBI é interpretado com um ar desalinhado e exasperado por um magnífico Mark Ruffalo.
«O Mark escreveu-me a mensagem mais bonita depois de terminarmos as filmagens», conta Frankel, «sobre arte e sobre saber deixar ir. Mas o melhor conselho que me deu foi: “Não te prendas demasiado ao resultado de uma cena.” Podemos preparar-nos, mas fazemos esse trabalho para podermos esquecê-lo quando chegamos ao plateau. Quando lá estamos, queremos viver o momento — e tentar controlar as coisas impede-nos de o fazer. O controlo, creio eu, é a morte da arte.»

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À primeira vista, esta parece ser uma observação estranha por parte de Frankel, uma vez que também está a dar os primeiros passos como realizador. Mas basta ver os dois videoclipes que já realizou (um para os Memory of Speke, uma banda formada por amigos de infância, e outro para Peter Zummo, músico de jazz radicado em Nova Iorque) para perceber como combina habilmente um abandono cru e desestruturado com um olhar meticuloso para a cor, a iluminação e a simetria. O irmão de Frankel, Max, é produtor, e os dois criaram recentemente a MarcelMonique Pictures, uma produtora cujo nome homenageia os avós. «É apenas uma forma de estendermos um pouco mais as nossas garras, sabem?», diz o ator. «Torna as coisas um pouco mais acessíveis — queremos trabalhar com cineastas verdadeiramente excecionais.»
No seu trabalho em televisão, Frankel já colaborou com vários realizadores premiados, aos quais atribui o mérito de lhe terem ensinado o que a função implica. «Tenho a certeza de que tenho muitas falhas enquanto realizador», diz, entre risos, «mas acho sempre que é preciso tornar o processo contagiante — fazer com que as pessoas fiquem tão entusiasmadas quanto nós.»
Brad Ingelsby pode não ser realizador, mas foi da sua mente que nasceu Task (uma espécie de neo-western, esta série de sete episódios apresenta mais ambiguidade moral e uma crueza mais autêntica do que qualquer filme de tiroteios protagonizado por Wayne). E, embora a história seja quase implacavelmente sombria, Frankel diz que o ambiente no plateau era alegre. «Nunca vi nada assim! Porque ninguém se entusiasma mais com o trabalho do que o Brad. Estava sempre a sorrir, entusiasmado e a transmitir confiança a toda a gente. Nunca stressado, sempre bem-disposto — e isso fazia com que os outros partilhassem a mesma paixão.»

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«Em Inglaterra, não somos muito bons nisso», continua Frankel. «De um modo geral, não somos particularmente efusivos. Pode haver uma ou outra palmadinha nas costas, mas acho que é algo que os americanos fazem muito bem. É provavelmente por isso que se sentem tão motivados a trabalhar arduamente — todo aquele entusiasmo e positivismo. Aprendi, enquanto ator, que quanto mais confiança nos dão, mais conseguimos dar em troca. Quando temos medo, é muito difícil correr riscos.»
À medida que envelhece, Frankel diz que está a tornar-se mais avesso ao risco. «A minha vontade de praticar atividades de alta adrenalina diminuiu substancialmente nos últimos anos», admite. «Já não quero estar em situações de vida ou de morte. Não há nada em mim que vá gostar disso.»
«O controlo, creio eu, é a morte da arte...»
Em vez disso, Frankel diz estar empenhado em alcançar algo. «Não sei exatamente o quê», acrescenta, «mas algo. Uma proeza que possa dizer que concretizei. Talvez algo físico, como escalar uma montanha ou correr uma maratona?»
O seu mais recente esforço físico aconteceu quando um amigo convidou Frankel para ir a um estúdio de ioga em Londres. Alguns dias depois da aula — «Exaustiva! Nem queria acreditar no quanto tinha sido difícil!» — o ator encontrou por acaso o seu instrutor de ioga num café da zona. «Ele reconheceu-me de Task e contou-me que tinha tido uma noite muito intensa na véspera, pois acabara de ver o episódio final da temporada.»

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Task tem, de facto, um episódio final de cortar a respiração — 58 minutos intensos durante os quais até o iogue mais experiente e habituado a respirar profundamente teria provavelmente dificuldade em manter a sua paz interior. No mês passado, Frankel assistiu, em Filadélfia, a uma exibição do episódio para o elenco. «É obviamente aí que a história se passa», afirma, «e fizemos a exibição na Philadelphia Film Society, um edifício antigo incrível que parece um cinema dos anos 1950.» De regresso à Grã-Bretanha, Frankel e o irmão tentam ir ao cinema pelo menos uma vez por semana (próximo filme: Frankenstein). O cinema que costuma escolher é o Everyman, em Maida Vale.
«Sei que é um pouco horrível dizer isto», ri-se, «porque não é cinema no sentido tradicional. Para ver filmes mais antigos, vou ao Prince Charles, em Leicester Square. Porque ali tudo parece como deve ser, sabem? Sessões em 35 mm! Pipocas! Sentimo-nos numa verdadeira sala de cinema.»
Por uma feliz coincidência, no próximo mês o Prince Charles vai exibir A Desaparecida — a obra-prima de John Wayne de 1956 e, segundo muitos, a sua melhor interpretação. Nessa altura, o homem que nascera Marion Morrison já há muito trocara as sílabas mais suaves do seu nome por um nome mais duro, digno de um herói. No entanto, ironicamente, A Desaparecida viu-o calçar as botas com esporas do protagonista Ethan Edwards — a que rapidamente se seguiram personagens como Joe January e Matt Masters. Ao que parece, o cowboy conseguia deixar muitas coisas para trás, mas não o fascínio da aliteração. Fabien Frankel, por seu lado, nunca se esquivou ao seu próprio nome distinto, de cadência dupla. Assim, no fim de contas, talvez a marca de um ator «sério» não seja o nome que tem — mas antes a confiança e a competência com que lhe responde.
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