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Como acender um charuto como um fumador experiente

Como acender um charuto como um fumador experiente

Saber acender um charuto é tanto uma questão de respeito como de técnica. A chama deve apenas beijar a folha, não consumi-la, permitindo que o charuto se abra lentamente e revele o seu caráter com o tempo.

A primeira coisa que se aprende sobre charutos é que ninguém realmente precisa de os fumar. Existem apenas porque a civilização inventou o tempo livre. Acender um é, portanto, menos um ato de necessidade do que uma cerimónia, o mais próximo que a maioria dos homens alguma vez estará de dirigir uma pequena orquestra feita inteiramente de fumo. Um charuto não é um cigarro, nem substitui o pensamento. É uma desculpa elaborada para ficar sentado, quieto, com um ar contemplativo.

E, como todas as coisas tocadas pelo ritual — o aperto de mão, a gravata, o conceito de brunch —, adquiriu regras, etiqueta e um leve toque de absurdo. Acender mal um charuto suscitará o mesmo olhar que se recebe por barrar incorretamente um scone em Pall Mall. Acendê-lo bem, por outro lado, granjear-lhe-á a aprovação silenciosa de homens idosos que não sorriem desde 1987.

A Mentalidade do Fumador Experiente

A Mentalidade do Fumador Experiente

Todo o bom ritual começa com uma ilusão, e os charutos não são exceção. O fumador experiente convence-se de que acender um é um ato meditativo de bom gosto e paciência. Na verdade, é uma forma complexa de pegar fogo a algo sem parecer ridículo.

Aborde a questão com compostura. Deve parecer descontraído, mas com um vago ar de propósito, como um homem que acaba de se lembrar de algo inteligente, mas não se dá ao trabalho de o partilhar. A primeira regra é nunca parecer que está a tentar passar por um fumador experiente. A segunda é certificar-se de que tem a bebida certa ao seu lado. O whisky é aceitável, o conhaque é melhor, a água é uma abominação.

Assim que se sentar — e fumar charutos é, sem dúvida, uma atividade que se pratica sentado —, sentirá a transformação começar. A conversa abranda. A sua postura melhora. Adquire subitamente a gravidade de um governador colonial a ponderar rotas comerciais. Isto é normal.

Escolher o charuto

A escolha de um charuto é o momento em que começa o espetáculo. Haverá sempre alguém na sala que pergunta:

“O que está a fumar?”

como se a resposta fosse alterar o índice Dow Jones. Diga algo com autoridade, mas vago. «Um Cohiba», talvez, ou «Montecristo». Nunca «o que quer que estivesse na caixa».

O Cohiba é confiante, todo ele sol e charme de Havana. O Montecristo é mais introspetivo, um charuto para quem gosta de desfrutar dos seus prazeres discretamente e de receber os aplausos com ainda maior discrição. Já um Romeo y Julieta é indicado para o otimista romântico que ainda acredita que coisas boas acontecem nos bares dos hotéis.

Ao examinar o charuto, adote um ar ponderado, mas não íntimo. Não está a pedi-lo em casamento. Passe um dedo pela capa, verifique a firmeza e inale o aroma com contenção. O aroma deve evocar subtilmente terra e cedro, nunca desespero. Quem aperta demasiado ou cheira durante demasiado tempo acaba invariavelmente por parecer ter confundido o salão de charutos com uma banca de mercearia.

Em suma, deve-se manusear o charuto como se manuseia o cão de uma duquesa: com respeito, divertimento e a suspeita de que poderá morder se for provocado.

Como Acender um Charuto com Intenção

Lighting a Cigar with Intention

Chega agora a questão do fogo e, com ela, a oportunidade de revelar o carácter de cada um. Um isqueiro para charutos diz mais sobre um homem do que o seu relógio. Os isqueiros a gasolina são para poetas que não podem pagar terapia. Os fósforos têm o seu encanto, desde que não chamusquem o papel de parede. Os isqueiros a butano, limpos e inodoros, são o padrão moderno, embora se devam evitar aqueles modelos industriais de jato que rugem como aviões de combate.

Uma vez, vi um homem acender um charuto com tal entusiasmo que a chama lhe chamuscou o punho da camisa. Foi uma experiência profundamente comovente. O charuto, há que reconhecê-lo, sobreviveu.

Se quiser seguir a tradição, use lascas de cedro. Ardem lindamente, têm um leve aroma a roupeiros antigos e autocontrolo, e só estão disponíveis em lugares onde se escreve “colour” corretamente. Permitem-lhe também executar aquele pequeno gesto dramático que todos os fumadores de charutos ensaiam secretamente ao espelho.

Segure o charuto com cuidado, aproxime a chama e comece a rodar o pé, ou seja, a extremidade aberta, como se estivesse a aquecer uma colher de algo raro. Não dê ainda nenhuma passa. A isto chama-se tostagem, e é aqui que o fumador experiente causa a sua primeira impressão. Quem apressa esta etapa acaba invariavelmente com uma combustão tão irregular que parece uma vela de vanguarda.

Uma tostagem adequada leva tempo. O objetivo é estimular o tabaco, não incinerá-lo. Imagine-se como um diplomata a apresentar dois líderes mundiais numa cimeira de paz. Nada de movimentos bruscos.

A Primeira Passa

Finalmente, pode fumar. Leve o charuto aos lábios e puxe lentamente, rodando-o para que a chama incida uniformemente sobre o pé. Quando este apresentar um brilho alaranjado, constante e suave, pode recostar-se e fingir que alcançou algo de significativo.

Essa primeira passa dir-lhe-á tudo. O Cohiba recebe-o com calor e especiarias. O Montecristo abre-se como uma sonata. O Romeo y Julieta suspira romanticamente e depois esquece-se porquê. Seja como for, deve parecer que esperava exatamente este resultado. A surpresa é vulgar.

Não inale. É o caminho mais rápido para a humilhação. O fumo do charuto deve permanecer na boca, desenrolando-se como um elogio bem proferido. Se o inalar, tossirá como um trator soviético. Deixe o fumo sair lentamente, de preferência pelo nariz, como se manifestasse uma ligeira desaprovação perante a decisão de outra pessoa.

A chave para uma boa passa é o ritmo. Se forem demasiado frequentes, o charuto aquece em demasia e perde as suas nuances. Se forem demasiado espaçadas, apaga-se, amuado como um spaniel ignorado. Procure dar uma passa por minuto, ao ritmo de um homem que não tem urgência em chegar a lado nenhum.

A Etiqueta da Chama

A Etiqueta da Chama

Cada clube tem as suas próprias regras tácitas, e a maioria gira em torno de não fazer má figura diante dos estofos. Nunca acenda o charuto de outro homem, a menos que ele lho peça. Nunca dê baforadas teatrais. E nunca, em circunstância alguma, tente reacendê-lo com uma vela. O cheiro da parafina misturado com o orgulho é difícil de esquecer.

Se o seu charuto se apagar, como por vezes acontece, sacuda suavemente a cinza, sopre uma vez através do charuto para expelir o fumo estagnado e recomece com paciência. Não há vergonha nisso. Vergonhoso é o homem que insiste que o charuto ainda está aceso e passa dez minutos a dar passas numa carcaça que se recusa a colaborar.

Um amigo meu insiste que consegue avaliar todo o caráter moral de um homem pela forma como este manuseia um isqueiro. Diz que aqueles que o acendem nervosamente antes de cada passa estão condenados à indecisão. Não encontrei qualquer motivo para discordar.

Acender um charuto em companhia

Acender um charuto na companhia de outras pessoas é um exercício de boas maneiras. O próprio ato transforma-se numa conversa, conduzida inteiramente através de olhares e acenos. Ao oferecer a chama, mantenha-a firme, deixe que o outro homem aproxime o charuto e retire-a com elegância. Não se incline como se estivesse a avaliar o progresso dele. Isto não é um exame de condução.

Em companhia, o momento certo é tudo. Acender o charuto demasiado cedo fá-lo parecer excessivamente ansioso. Demasiado tarde, e arrisca-se a parecer distante. O segredo é esperar até que a primeira nuvem de fumo se eleve do canto de outra pessoa e, então, avançar como se se tivesse lembrado da sua própria existência.

Há algo de maravilhosamente absurdo num grupo de homens a executar esta coreografia, cada um fingindo não se importar enquanto compete secretamente pela mais elegante nuvem de fumo. É o equivalente masculino da natação sincronizada.

O Ambiente para o Fumador Experiente

O Ambiente para o Fumador Experiente

Os charutos não são para fumar ao ar livre, exceto talvez numa varanda, de onde se possa ver a chuva cair sobre pessoas com passatempos menos confortáveis. O ambiente ideal é no interior, onde paira no ar uma ténue memória de carvalho e conversa.

Em Mayfair, não faltam locais adequados. Há sempre um clube com poltronas de couro, decantadores e o murmúrio grave de homens a discutir assuntos de uma irrelevância assombrosa. Aqui, acender um charuto faz tanto parte da decoração como o retrato de algum baronete esquecido, que observa tudo do alto com uma leve expressão de desaprovação.

Pode acompanhar o seu charuto com uma bebida. O whisky é uma escolha segura. O conhaque é nobre. O rum, se tiver de ser. Esta combinação, porém, não tem que ver com embriaguez. Tem que ver com simetria. A bebida reflete o fumo. Juntos, criam aquela curiosa ilusão de profundidade que faz até a anedota mais trivial soar a diplomacia.

Sobre Cinza e Outras Tragédias

Um bom charuto forma uma cinza longa e direita que se mantém teimosamente agarrada, como um velho amigo que se recusa a abandonar uma festa. Não lhe dê um piparote. Deixe a gravidade fazer o seu trabalho. Se lhe cair no colo, finja que foi de propósito.

Uma combustão irregular sugere que o charuto foi aceso à pressa. Pode corrigi-la com um breve toque da chama, mas não entre em pânico. Os charutos, tal como os comboios britânicos, raramente cumprem os horários na perfeição.

O charuto deve ser fumado até dar sinal de que chegou ao fim. Quando ficar demasiado quente ou acre, pouse-o no cinzeiro e deixe-o apagar-se. Esmagá-lo para o apagar é imperdoável. Não se mata um convidado. Limita-se a deixar que a visita chegue ao fim.

A Reflexão

O Reflexo

Quando o charuto estiver quase no fim, sentirá uma serenidade peculiar. O ritual cumpriu a sua função. A sala parece mais acolhedora, a conversa mais pausada e o mundo, por breves instantes, tolerável. Este é o segredo que todos os fumadores experientes partilham: saber que não é o charuto em si que importa, mas a calma que proporciona.

Acender um charuto é, no fundo, um exercício de futilidade executado com elegância. Não serve para nada e, no entanto, melhora tudo. É o último refúgio do homem contemplativo, o único ritual que resta numa era avessa à espera.

Sempre que acendo um charuto, lembro-me de um antigo sócio do White’s que me disse: «A particularidade dos charutos é que nos dão uma desculpa para não fazer absolutamente nada e ainda parecer sofisticados.» Considero este um dos poucos conselhos que vale a pena guardar.

Assim, da próxima vez que se encontrar em Mayfair, envolto pelo suave murmúrio do anoitecer, sente-se, escolha o seu charuto com a solenidade de um estadista e acenda-o com cuidado. Rode-o, aqueça-o, dê uma passa e expire. Depois, recoste-se, não diga nada e desfrute da discreta comédia de um ritual ancestral praticado por homens que já deviam ter juízo, mas que, felizmente, nunca terão.

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