
A ascensão fantástica de Jay Lycurgo
Desde The Bastard Son & the Devil Himself, da Netflix, até à dupla estreia iminente de The Radleys, da Sky, e Generation Z, de Ben Wheatley, Jay Lycurgo é o novo príncipe dos dramas de fantasia sombrios e realistas
- Texto de: Lucy Ford
Nesta altura, Jay Lycurgo já se sente perfeitamente à vontade coberto de sangue. Sangue falso, claro. «Na vida real, se algum dia tiver sangue no corpo, na cara, espero reagir bem», diz o ator de 26 anos, entre risos, numa videochamada a partir do seu apartamento em Londres. Talvez já tenha visto Lycurgo, natural de Croydon, em The Batman, de 2022, onde participou numa violenta luta corpo a corpo nas cenas iniciais. Ou talvez o tenha visto como protagonista da série da Netflix sobre bruxaria, tragicamente efémera, The Bastard Son & the Devil Himself (baseada na popular trilogia de livros Half Bad), na qual passava mais tempo coberto de um pegajoso xarope vermelho do que sem ele.
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Este ano, vai protagonizar mais dois projetos banhados em sangue — The Radleys, com Damien Lewis, um filme intimista sobre uma discreta família britânica de vampiros. Segue-se Generation Z, uma série de zombies repleta de violência gráfica, de Ben Wheatley, que analisa o fosso geracional entre boomers e zoomers através da sede de sangue e carne humana. Em ambos, Lycurgo interpreta um adolescente a braços com as convulsões da adolescência, como a rebeldia contra os pais e as hormonas em ebulição, acrescidas da ameaça de monstros desejosos de o devorar. Na sua carreira ainda em ascensão (conseguiu o seu primeiro papel depois de se formar, em 2019, na escola de teatro londrina ArtsEd, na entretanto extinta telenovela diurna Doctors, e recorda ter ficado «eufórico» por ter sido escolhido), Lycurgo tem-se sentido atraído pelo que talvez se possa chamar drama fantástico doméstico britânico. «Em tudo o que fiz dentro de um género específico, há uma base de verdade muito sólida. É como perguntar: e se uma pessoa com um pai abusivo também vivesse num mundo de zombies?», afirma.
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Ambos os projetos exploram a forma como a chegada, capaz de mudar vidas, de vilões sedentos de sangue afeta de maneira diferente pessoas de várias classes sociais. «O mais interessante em The Radleys e Generation Z é o facto de assentarem no realismo, serem muito britânicas e transmitirem uma sensação muito britânica. Estamos simplesmente nas nossas casas inglesas, com as nossas mães e os nossos pais ingleses.» O mesmo se pode dizer de The Bastard Son & the Devil Himself, descrita como uma mistura de Harry Potter e Skins quando estreou, em 2022. Nessa série, Lycurgo interpretou um adolescente da classe trabalhadora, alvo de uma verdadeira caça às bruxas dos tempos modernos devido à sua ascendência, por ser filho ilegítimo da feiticeira mais perigosa da história.
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Apesar de ter sido aclamada pela crítica aquando da estreia, a Netflix não deu continuidade à série, que ficou por uma única temporada — algo que Lycurgo encara agora como uma importante lição para o futuro. «Cresci muito com essa experiência. Tinha 23 anos quando a fiz. Agora tenho 26», afirma. «Há um sentimento de perda, mas isso acontece com tudo, até quando se termina um trabalho. É uma porcaria, não é? Mas o lado bonito da situação, e algo que tive de aprender, é que, ainda assim, criámos aquela série incrível. Não sabia nem imaginava que isso me fosse afetar tanto. No papel, parecia que tudo nos levaria a uma segunda temporada, mas há imensas coisas que não podemos controlar. Temos de aprender a confiar em nós próprios e nos nossos instintos.»
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Esses mesmos instintos já estão a conduzir Lycurgo na direção que pretende dar à sua carreira. No seu próximo papel, contracenará com Cillian Murphy no novo filme da Netflix, Steve, sobre a vida de um diretor de escola em dificuldades. Lycurgo faz questão de aproveitar o tempo que passa ao lado de grandes nomes do ecrã como uma oportunidade de aprendizagem (chegou a receber alguns conselhos inestimáveis de Damian Lewis, mas «eram para outra coisa que não quero revelar», desconversa com um sorriso maroto).
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Lycurgo sente-se atraído por personagens com traumas que possa desvendar em tempo real no ecrã. É, em parte, isso que torna tão fascinante estar naquela fase ideal em que ainda consegue interpretar de forma convincente jovens no limiar da idade adulta. «O trauma é fascinante. A forma como se manifesta, como é alimentado e como cuidamos dele», reflete. «Porque, a certa altura, são os nossos pais que cuidam dele, mas depois temos de ser nós, e faz parte de algo tão subtil, algo que não se consegue ver.» É também por isso que um dia quer interpretar uma estrela de rock. Isso e a possibilidade de conciliar a representação com a sua outra obsessão na vida: a música (diz que os The Beatles são a sua grande hiperfixação). «Mas não uma estrela imaculada; não queremos uma estrela de rock inocente. Essas são as aborrecidas», diz, entre risos. No fundo, quer interpretar alguém que tenha passado por muito.
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Acima de tudo, não deixa que a síndrome do impostor ou a insegurança interfiram com os seus instintos. «Quero continuar a melhorar», diz, referindo-se ao esforço de superar o desconforto de ver o seu próprio trabalho. «Muitas vezes, quando me vejo, penso: “Oh, isto podia ter sido melhor”», acrescenta. «Não sou demasiado exigente comigo próprio, diria apenas que sou construtivo. Temos de reconhecer o nosso próprio mérito sempre que podemos, porque, assim espero, esta será uma longa carreira.»
Fotógrafo: Ahmed Hassan
Styling: Zak Maoui
Direção criativa: Freya Anderson
Cabelo e maquilhagem: Paul Donovan
Este artigo foi retirado da nossa edição de outono de 2024. Saiba mais sobre o mesmo aqui.
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