
No interior da histórica casa da Moto Guzzi, reinventada
Exploramos a renovação de 50 milhões de euros do fabricante italiano de motociclos e aprofundamos a visão arrojada do arquiteto Greg Lynn para o seu próximo capítulo…
- Texto de: Jonathan Wells
A Moto Guzzi percebe bem de mudanças de velocidade. Os primeiros motores V-twin do fabricante italiano de motociclos apresentavam uma engenharia de transmissão incrivelmente sofisticada. Pouco antes da viragem do milénio, surgiu uma nova caixa de seis velocidades, leve e com um mecanismo de seleção radicalmente revisto. E, no início desta década, a V100 Mandello estreou mesmo o primeiro quickshifter da Guzzi.
Também há mudanças no local que deu o nome à última moto referida: a pitoresca localidade de Mandello del Lario, na Lombardia, onde a Moto Guzzi fabrica motociclos há mais de 100 anos. Após quase cinco anos de obras e um investimento total superior a 50 milhões de euros, a marca inaugurou a sua renovada sede: um centro moderno e multifuncional que integra a fábrica, a Motoplex Store, um museu, um café e um novo auditório.
Redesenhado pelo arquiteto norte-americano Greg Lynn, o espaço é agora simultaneamente fábrica, museu, espaço de exposição e ponto de encontro. Gentleman’s Journal deslocou-se a Mandello no início deste mês para conhecer o espaço — e falar com o próprio Lynn sobre a forma como criou «um diálogo entre as motos históricas do museu e as motos modernas da fábrica».


«O que espero que as pessoas sintam é uma continuidade», afirma Lynn, que já venceu o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza. «Há 105 anos que se constroem motociclos precisamente neste local. Devemos senti-lo antes que alguém no-lo explique.»
É um desafio ambicioso. Mas Lynn e a Moto Guzzi trabalharam em estreita colaboração para criar dois mundos distintos a partir do espaço existente. O primeiro organiza-se em torno do histórico túnel de vento — a Galleria del Vento —, enquanto o segundo coloca o museu em diálogo com edifícios em funcionamento, incluindo a unidade de montagem e a fábrica de motores. «Uma das praças encerra a história da inovação neste local», afirma Lynn. «A outra encerra o seu futuro.»
A visão em si é cativante: repleta de curvas arrojadas e cores vivas. Mas Lynn admite que o verdadeiro motor do projeto foi «espacial, mais do que estilístico». «Não pedimos aos novos edifícios que fossem delicados com os antigos», acrescenta. «Envolvemos uma praça pública no interior de uma fábrica em funcionamento.»

A fábrica, por sua vez, está envolta pela natureza. Concebido com uma atenção constante e rigorosa à sustentabilidade ambiental e à utilização eficiente dos recursos, todo o complexo situa-se no lado de Lecco, junto ao lago de Como, precisamente entre o lago e as montanhas. Entre as suas credenciais ecológicas, talvez a característica mais impressionante seja um conjunto de painéis fotovoltaicos com 1 300 metros quadrados, recentemente instalado e concebido para captar a abundante luz natural de Itália.
«Na verdade, essa ideia partiu dos trabalhadores», explica Lynn. «Pediram luz natural na nova fábrica de motores. Por outro lado, a coleção histórica de motociclos do museu merece ser iluminada pela mesma luz solar sob a qual foram conduzidos, pelo que ambos os fatores nos levaram a optar pela entrada de luz através do teto.»
“Não pedimos aos novos edifícios que fossem delicados com os antigos…”
É um projeto elegante. O museu e a cantina têm uma forma vagamente cónica, enquanto a fábrica de motores é rematada por uma cobertura angular e dobrada, concebida por Lynn para levar uma luz natural suave e difusa até ao interior do edifício. «A luz de Mandello muda radicalmente da manhã para a noite e ao longo das estações», afirma, «e ilumina tão bem os novos edifícios que, durante grande parte do tempo, a iluminação elétrica simplesmente não é necessária.»
As silhuetas destas estruturas redesenhadas também deram origem ao que o arquiteto chama uma «descoberta colateral» — e a mais uma referência à natureza. «Nos modelos de grande escala, os seus perfis pareciam montanhas», afirma. «Essas coberturas em ziguezague em torno da praça enquadram os picos e dialogam com a paisagem.»



Havia também marcos construídos pelo homem que importava homenagear. Em particular, o portão vermelho na Via Parodi, a entrada dos técnicos, operários e engenheiros da Moto Guzzi desde 1921, que se tornou um local de peregrinação para motociclistas de todo o mundo. «Um dos principais objetivos era proporcionar uma experiência pedonal», afirma Lynn, «atravessando aquele portão histórico e entrando no complexo, onde os visitantes podem conhecer em segurança uma fábrica de vanguarda, viva e em pleno funcionamento.»
E assim entramos na própria fábrica. Situada no coração das instalações originais, Lynn transformou por completo, mas de forma harmoniosa, as áreas industriais, acrescentando 5 500 metros quadrados de novos edifícios para aumentar a produção anual da Moto Guzzi para mais de 30 000 motociclos. Tanto a partir de um mezanino como através de grandes janelas ao nível do rés do chão, os visitantes podem observar os trabalhadores, os robôs e as linhas de montagem em funcionamento, acompanhando uma moto à medida que esta ganha forma diante dos seus olhos.
«Queríamos que os visitantes vissem a coreografia entre as pessoas e as máquinas», afirma Lynn. «Essa palavra é importante para mim: coreografia. Não se trata de a automação substituir o saber-fazer italiano, mas de ambos funcionarem em sintonia, algo que se percebe observando durante apenas alguns minutos.»

Também a tecnologia foi decididamente projetada para o futuro. A fábrica de montagem final é particularmente impressionante, estando ligada à oficina de motores por um sofisticado sistema de transporte robotizado. Aqui, as motas são entregues a «drones terrestres» concebidos pela Piaggio e enviadas autonomamente para os testes finais. Esta solução foi pensada tanto para garantir a segurança dos trabalhadores como para tornar o espaço visualmente mais organizado.
«O que se nota é aquilo que não se vê», afirma Lynn. «Camiões, carrinhas, empilhadores. Os robôs transportam mercadorias sem necessidade dos veículos pesados que antes congestionavam este local, e as várias docas, vias de circulação e zonas de manobra desapareceram. Ao eliminarmos as vias destinadas a veículos que ocupam muito espaço, recuperámos espaço para as pessoas.»
Embora fiquem, sem dúvida, fascinados com os meandros de uma fábrica em funcionamento, os visitantes sentir-se-ão também atraídos pelo museu — uma verdadeira arca de modelos clássicos e curiosidades técnicas, com projeções das vitórias no desporto motorizado e uma sala de troféus primorosamente decorada. Estão expostos mais de 160 veículos de duas rodas meticulosamente restaurados, desde a G.P. — um dos primeiros protótipos, concebido por Carlo Guzzi e Giorgio Ripamonti em 1919 — até às modernas motos de competição, que já valeram à marca 14 títulos do Campeonato do Mundo de MotoGP.
O museu também documenta a presença da Moto Guzzi no cinema e nas artes, bem como o seu papel nas forças militares e policiais. No exterior, as homenagens ao património continuam, desde o monumental mosaico da águia da Moto Guzzi na praça central (o logótipo foi escolhido em homenagem a Giovanni Ravelli, piloto militar e terceiro membro fundador da marca) até ao restaurado túnel de vento Galleria del Vento.
Nos primeiros anos da Moto Guzzi, este túnel de vento tinha um consumo de energia tão voraz que «sempre que o punham a funcionar, avisavam os habitantes de Mandello de que as luzes poderiam apagar-se», conta Lynn. Tornou-se um dos seus locais preferidos do complexo, graças à face rochosa da montanha, agora exposta, que desce diretamente até à praça em frente ao túnel.


«Durante décadas, esteve escondida pela fábrica de motores construída nos anos 70», explica Lynn. «Agora, a rocha exposta, o musgo e a água que escorre, em contraste com os edifícios históricos e a nova fábrica de motores, fazem deste um lugar sem igual. Uma fábrica que produz motociclos ininterruptamente há 105 anos, situada entre uma parede de granito e um dos lagos mais profundos do mundo, é algo único.»
É evidente que a paixão de Lynn pela Moto Guzzi é tão profunda como o compromisso da própria marca em criar motociclos de excelência. Mas, com mais de um século de história já visto pelo espelho retrovisor — com cada marco registado e catalogado no museu — o que espera o arquiteto para o futuro do seu próprio contributo para a Moto Guzzi?
«É isto: o café cheio numa terça-feira de manhã, com pessoas de Mandello que visitam este local há gerações e turistas que estão de visita à região. Motociclistas que chegam de toda a Europa e que, em vez de se limitarem a tirar uma fotografia e ir embora, ficam durante horas a observar a fábrica e o museu. Porque, sem visitar Mandello, não se compreende que a casa dos motociclos Moto Guzzi se encontra num lugar tão mágico.»
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