
Daniel Fletcher fala sobre a sua coleção Sloaney Mithridate para a primavera/verão de 2026
Fletcher apresentou a sua segunda coleção para a marca chinesa Mithridate na Royal Opera House
- Texto de: Zak Maoui
«É como uma viagem do campo para a cidade e sobre a forma como esses dois mundos interagem», afirmou Daniel Fletcher acerca da sua coleção Mithridate Primavera/Verão 2026, antes do desfile na Semana da Moda de Londres. «Assim, comecei por pegar em peças muito britânicas e familiares, como camisas de algodão às riscas ou camisolas de malha entrançada, e depois combinei-as com algo muito mais urbano e inspirado na noite.»
Apresentada na histórica Royal Opera House, em Covent Garden, a segunda coleção de Fletcher para a marca chinesa parte dos anos 1980 e, em particular, dos Sloane Rangers — cuja figura arquetípica era a falecida Lady Diana. «Um dia no campo transforma-se numa noite na cidade. Estamos nos anos 1980 e o hedonismo paira no ar», lia-se nas notas do desfile do criador. «Amontoados no Jaguar enlameado, a caminho das luzes brilhantes do Royal Borough.»
A coleção passou do campo para a cidade num ápice de verde-racing, castanho-chocolate, azul-bebé e lavanda. «Criei aquele género de visual do campo inglês e depois transformei-o em algo adequado à King's Road dos anos 80.» Embora a moda feminina estivesse carregada de lantejoulas e vestidos concebidos para a noite ou para os martínis da tarde no recém-inaugurado restaurante At Sloane — um deles foi criado a partir de um tapete antigo —, a moda masculina afirmou-se com igual vigor. Os calções combinados com blusões acolchoados com fecho e bonés remetiam para os antigos alunos de colégios internos, já adultos, que frequentavam assiduamente os pubs nas imediações de Sloane Street nos anos 80, enquanto as malhas entrançadas se sobrepunham a peças de alfaiataria em lã e seda. A alfaiataria era descontraída e laissez-faire — uma assinatura de Fletcher —, acompanhando cada passada com naturalidade e rematada por gravatas atadas de forma solta. Num dos casos, um xaile com franjas inspirado no vestuário de noite foi aplicado numa peça de malha; noutro, surge confecionado em camurça e aplicado num casaco do mesmo material. A coleção personificava a despreocupação da elite abastada dos anos 80.
Nesta estação, Fletcher decidiu elevar a fasquia da oferta de acessórios da Mithridate. Numa coleção assente na ideia de viajar do campo para a cidade, os sacos de grandes dimensões inspiram-se na bagagem clássica, com detalhes retirados do interior de baús e etiquetas de bagagem em relevo. Entretanto, os motivos numéricos, uma presença habitual na marca homónima de Fletcher desde a sua criação, em 2014, surgiram em destaque, aplicados em bonés, peças de malha e calções. «A inspiração original surgiu da observação de campos de râguebi e equipamentos desportivos, mas os números também são muito importantes na prática chinesa do feng shui», afirmou à Gentleman's Journal.
Para Fletcher, a coleção foi uma viagem por um passado imaginado, inspirada em fotografias antigas dos Sloane Rangers. Mas havia também nela uma dimensão pessoal. «Diria que a minha ligação aos Rangers vem desta ideia de ter crescido num ambiente mais rural, perto de Chester, e depois me ter mudado para a cidade, vivenciando realmente as diferenças entre os guarda-roupas que encontramos.»


