
Bar Finch espera devolver a natureza a Mayfair
O excelente novo restaurante de Charles Finch é um sucesso entre os moradores locais e uma lembrança do que esta zona da cidade já foi — e poderá voltar a ser
- Texto de: Joseph Bullmore
Abrimos discretamente há alguns meses, em Cork Street, no bairro de Mayfair, com uma pausa de duas semanas no auge do verão. Estava tanto calor que o passeio escaldava e os londrinos refugiavam-se à sombra ou saíam da cidade rumo a lugares ainda mais quentes, onde o ar condicionado funciona melhor.
Os primeiros dias foram um pouco atribulados de todas as formas imagináveis, desde luzes que não funcionavam, ou que funcionavam como bem entendiam: luminosidade máxima durante o dia e escuridão total à noite. Nada entre uma coisa e outra. Houve avarias na cozinha, uniformes por acabar e uma ementa que ainda não tínhamos definido por completo — mas abrimos na mesma. E é assim que tem de ser com qualquer projeto em fase de arranque, pelo menos com aqueles a que estou habituado. Por mais que nos preparemos — e, no meu caso, foram anos — há sempre coisas que correm mal e, normalmente, são as merdinhas insignificantes que nos tramam.

Receber pessoas é uma coisa maravilhosa. É mesmo. Uma espécie de vocação. Preparar comida e servi-la com orgulho num espaço com que sempre se sonhou é como encenar uma ópera ou fazer um filme. Há muitas peças em movimento. Muita cor, luz e música, e também muitas lágrimas. É duríssimo, e encontrar uma equipa que compreenda a nossa visão e consiga enriquecê-la é, ao mesmo tempo, a melhor parte e a mais difícil. Afinal, todas as noites o espetáculo é ao vivo. Por isso, gerir um restaurante recém-aberto pode ser um pouco como saltar de paraquedas sabendo que o paraquedas principal talvez não esteja muito bem dobrado…
No meu caso, porém, foram mesmo anos de preparação. Depois de vender o meu primeiro restaurante, o Chucs Bar & Grill, na Dover Street, há cerca de oito ou nove anos, demorei algum tempo a ganhar coragem para abrir outro espaço e encontrar o local certo.

A Cork Street fica no meu bairro. Era a rua das galerias de Mayfair. Na galeria Fred Mayer, expunham artistas como Picasso, Léger e Braque, bem como os artistas britânicos Nicholson e Moore. Mais tarde, Peggy Guggenheim fez desta rua a sua base, antes de se deixar encantar por Veneza. É bastante difícil competir com Veneza, há que dizê-lo. Nos últimos anos, a Cork Street — como a maioria das ruas hoje em dia — perdeu muito do seu encanto. Os lugares de estacionamento tomaram conta da rua, o que leva as carrinhas de entregas a ficarem ali estacionadas o dia inteiro, tapando as fachadas de edifícios inteiros, e há também galerias entaipadas. As árvores desapareceram. Vi uma fotografia da antiga Cork Street e havia árvores. Agora já não. Precisamos mesmo de devolver a natureza a Mayfair! Que voltem os vendedores de ostras e as pequenas lojas.



A propósito, o Conselho de Westminster continua a fazer tudo para dificultar as coisas. Perseguem-me se uma cadeira ultrapassa em dois centímetros e meio a área permitida, que, no nosso caso, corresponde à largura de uma única laje do passeio, mesmo numa rua deserta. Investi imenso tempo e dinheiro num novo espaço onde os moradores locais querem vir comer e sentar-se ao ar livre, e o conselho sufoca-nos com burocracia. É uma loucura. Hoje em dia, o excesso de regulamentação e as taxas elevadas tornam quase impossível sobreviver no comércio a retalho ou na restauração. É uma realidade. Estamos a destruir as nossas pequenas empresas e o espírito das nossas vilas e cidades. Ouça bem, caro leitor. Se não desregulamentarmos, deixará de haver lojas. Tudo isto, juntamente com o IVA aplicado aos turistas e a tributação excessiva, está a asfixiar as empresas, e o nosso pequeno restaurante novo, construído com amor, não é exceção. Dá-me vontade de encarnar a personagem do meu pai em Network e gritar pela janela:
«NÃO VOU AGUENTAR MAIS ISTO!»

O restaurante é minúsculo. Tem apenas 46 lugares, no máximo, e uma pequena «table à deux» do chef no piso inferior. Temos um piano e um pianista todas as noites. Um martíni mesmo bom e um hambúrguer requintado. O nosso chef é Tom Trubshaw, vindo do restaurante de Andrew Edmunds, a poucos quarteirões daqui. Queremos servir comida que apeteça comer, feita com produtos de fornecedores que conhecemos. Trouxe alguns dos meus amigos do cinema e, até agora, também estão a gostar. Apareça.



