Mark Ronson fala sobre criatividade e como tornar-se produtor musical
“A coisa mais importante que pode fazer é ouvir...”
- Texto de: Mark
Para evoluir verdadeiramente e tornar-se um produtor musical competente, dedique algum tempo a estudar as suas canções e álbuns favoritos, bem como os produtores e os seus métodos. Ouvir discos antigos foi a minha faculdade — Earth, Wind & Fire, Quincy Jones, Timbaland e The Neptunes foram alguns dos artistas que estudei. Se pretende criar um êxito que chegue ao top 10 ou uma canção de um determinado género musical, estude os melhores exemplos e inspire-se neles. Reutilizar e reinventar os elementos fundamentais, os ritmos e os sons na sua criação permitir-lhe-á aproximar-se muito mais desse género ou estilo. Estudar os grandes discos, nem que seja apenas para perceber como funcionam — essa é a sua universidade.
O importante é perceber que não é preciso ter um equipamento sofisticado para criar sons incríveis. Claro que seria ótimo fazer solos nos instrumentos dos seus sonhos, mas, enquanto produtor, o que realmente importa são os sons que cria. Procure pedais interessantes, plug-ins e outras formas inovadoras de fazer uma guitarra soar como nunca soou — ou até de fazer com que nem sequer pareça uma guitarra. É isso que me entusiasma. Ao experimentar e combinar estas coisas, acaba por obter um som que não só nunca ninguém ouviu, como nem o próprio alguma vez ouviu. E é isso que dá vontade de construir uma canção em torno de um timbre incrível que acabou de descobrir.

Por vezes, podemos apoiar-nos demasiado naquilo em que nos sentimos mais confiantes, mas essa não deve ser a única mais-valia que temos para oferecer. Sair da nossa zona de conforto e experimentar processos que não dominamos irá quase sempre melhorar as nossas competências. Tentar aprender a tocar um instrumento ou praticar com um que não conhecemos bem pode ser uma excelente forma de repensar o nosso papel num projeto e de nos colocarmos no lugar de um artista. Isto permite-nos encontrar novas fontes de inspiração para compor melodias, linhas de baixo ou progressões de acordes, através da experimentação tátil com o instrumento.
Nos dias em que tenho dificuldade em encontrar inspiração, o que faço para ajudar a desbloquear esses impulsos criativos é ir ao YouTube e aprender a tocar uma das minhas músicas favoritas. É entusiasmante aprender algo de que gostamos e acabamos por descobrir algo novo sobre inversões e acordes.
“Foi ao experimentar com o meu piano que surgiu a inspiração para Back To Black”
A coisa mais importante que se pode fazer enquanto produtor é ouvir. Um exemplo marcante da minha carreira foi quando conheci Amy Winehouse e lhe fiz uma pergunta simples: «Como queres que soe o teu álbum?» Pode parecer demasiado simples, mas, quando estamos ali para produzir um disco para alguém, a melhor coisa que podemos realmente fazer é pegar na visão dessa pessoa e ampliá-la um milhão de vezes.

Foi ao experimentar com o meu piano que surgiu a inspiração para Back To Black. Quando conheci Amy Winehouse, em 2006, ela disse-me que queria fazer um disco que soasse à música dos grupos femininos dos anos 60 que passavam no bar que frequentava. Mostrou-me as Shangri-Las — música que eu conhecia bem, mas muito diferente de tudo o que tinha produzido até então.
A Amy voltou para o hotel e eu fiquei acordado toda a noite, entusiasmado com a energia daquele encontro. Queria criar algo que a inspirasse e a levasse a escolher-me para trabalhar no disco dela. Sentei-me ao piano e, por acaso, toquei um acorde de ré menor, com o lá no baixo. Senti imediatamente qualquer coisa e, por algum motivo, soube qual seria o acorde seguinte. Ela tinha-me inspirado de tal forma com toda aquela música, com todo aquele dramatismo, que me sentei ao piano e criei aquilo. É estranho como estes momentos acontecem, mas temos simplesmente de nos desafiar e acolhê-los quando surgem. É certo que nada acontecerá se não nos sentarmos e tentarmos.
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