Confissões de um detetive de vinhos
Como verificar a autenticidade do rótulo de um vinho de qualidade?
- Texto de: Stuart George
Em novembro de 2019, vi uma garrafa de Pétrus de 1990 — uma excelente colheita de um grande vinho de Bordéus — posta à venda por uma leiloeira de Sussex, com uma estimativa de 200 a 300 libras. Como já tinha vendido anteriormente uma garrafa deste vinho por 4500 libras, fiquei entusiasmado com a possibilidade de fazer um bom negócio, revendendo-a com um lucro significativo (ou até bebendo-a por um custo irrisório).
Mas, depois de despertar completamente, uma análise mais atenta das imagens revelou que a autenticidade da garrafa era duvidosa. Tratava-se de uma contrafação de Pétrus — e nem sequer muito bem feita.
The bottle was the wrong shape. The shoulders of a genuine Pétrus bottle are longer and lower. Wax capsules are never used on Pétrus 75cl bottles. They are used only for large formats and then very occasionally. Jéroboams of 1970 and Impériales of 1989 had wax seals but otherwise I’ve never seen them on genuine Pétrus bottles of any size.
I contacted the auctioneer to advise that the bottle was counterfeit and to suggest that it be pulled from the sale. It was withdrawn, sparing the auctioneer of further embarrassment and the prospect of wilfully selling counterfeit wine – which is criminal fraud.
O meu primeiro contacto com vinhos finos contrafeitos ocorreu através do The White Club, um «clube» de vinhos finos sediado na Suíça, fundado e gerido por dois dinamarqueses encantadores e atraentes. O «clube» era um festim itinerante, que organizava, por todo o mundo, jantares de vinhos finos a preços muito elevados, nos quais eram abertas garrafas excecionalmente raras.
Em abril de 2013, o The White Club organizou em Londres um jantar dedicado ao Domaine de la Romanée-Conti, que eu tinha concordado em promover e apresentar em conjunto. Todos passaram um bom momento a beber exemplares envelhecidos do vinho mais caro do mundo. Mas, para mim, a experiência foi muito insatisfatória e decidi não voltar a ter qualquer relação com o The White Club: demasiado irresponsável, demasiado pouco fiável e demasiado dissimulado. Guardei as garrafas vazias de Romanée-Conti como recordação dessa noite.
Em janeiro de 2014, um jornalista dinamarquês contactou-me para dizer que tinha provas sólidas de que o The White Club servia vinhos falsificados nos seus eventos. Pedi para ver essas provas e tudo se tornou claro. Pelo menos duas das garrafas servidas em Londres tinham sido utilizadas em eventos anteriores — ou seja, tinham sido reenchidas.
Fui buscar as garrafas vazias ao armazém e, pela primeira vez, examinei-as longa e atentamente. Concluí que seis dos nove vinhos DRC abertos em Londres eram contrafeitos. A partir daí, prometi a mim mesmo que nunca mais voltaria a ser enganado daquela forma.

Um dos apreciadores de vinhos finos dados ao onanismo no Wine Berserkers.com é um advogado de Los Angeles chamado Donald Cornwell. Sem quaisquer provas que sustentassem a acusação, acusou-me de estar envolvido na fraude do The White Club.
O Sr. Cornwell engana-se frequentemente, mas nunca tem dúvidas. Por exemplo, além de me acusar de ser um falsificador de vinhos, insistiu que uma garrafa de La Tâche de 1945 — um vinho raro e prestigiado da Borgonha —, numa imagem de uma leiloeira, apresentava o «vidro verde-escuro típico da época».
Hum, não, não é.
Durante a guerra, houve escassez de crómio, que confere ao vidro uma tonalidade verde mais intensa. O crómio era utilizado – juntamente com o ferro – para fabricar aço inoxidável, em vez de garrafas de vinho. Por isso, as garrafas produzidas durante a guerra têm uma cor clara. Michael Broadbent, antigo diretor do Departamento de Vinhos da Christie’s e provavelmente a pessoa viva que mais vinhos antigos viu e provou, refere-se a uma «garrafa verde-clara do tempo da guerra» na sua nota sobre o Richebourg de 1942 – uma vinha próxima de La Tâche – no seu livro Vintage Wine.
O Sr. Cornwell gostava de se juntar a Maureen Downey para me atacar, sendo esta descrita pelo Institute of Masters of Wine como «uma especialista independente em vinhos finos e raros e em gestão de coleções de vinhos, e (que) é uma das principais autoridade mundiais (sic) em fraude vinícola, contrafação de vinhos e autenticação de vinhos finos». (Esta é certamente uma descrição redigida pela própria Downey, radicada em São Francisco, que ninguém no IMW se deu ao trabalho de rever.)
Fartei-me de acordar aos domingos de manhã e ser recebido pelos seus ataques contra mim no Twitter, que só ocasionalmente se assemelham a inglês e, mesmo assim, suspeita-se que apenas por acaso. Por isso, bloqueei-a em todas as redes sociais e ignorei-a. (™A Técnica Antitroll da Arden Fine Wines.)
Em 2018, a minha vida feliz sem Downey foi perturbada quando li uma notícia intitulada «Segundo Maureen Downey, poderão ainda estar no mercado vinhos finos no valor de até 550 milhões de dólares norte-americanos, provenientes do falsificador Rudy Kurniawan, atualmente preso». (Rudy Kurniawan era um burlão que vendia vinhos finos contrafeitos. Foi detido em março de 2012.)
A minha primeira reação a esse valor foi: «Isso é um completo disparate». Segundo a Wine Spectator, o mercado de leilões de vinhos de alta qualidade totalizou 381,7 milhões de dólares em 2017. E eis que Maureen Downey afirmava que uma só pessoa tinha criado mais garrafas de vinho de alta qualidade contrafeitas do que o número de garrafas (genuínas ou não) vendidas num ano pelas principais leiloeiras do mundo. É difícil de acreditar.
Após uma análise mais aprofundada, verificou-se que o total de Downey — tal como o sol — continuava a subir todas as manhãs.
Numa entrevista publicada em abril de 2014, Downey foi citado como tendo afirmado: «A verdade é que, desde 2002 e até à sua detenção, Rudy vendia anualmente vinho no valor de até 1 milhão de dólares.» Isto significa que vendeu, no máximo, 10 milhões de dólares em vinho.
Em agosto de 2014, apenas quatro meses após a publicação desta entrevista, Downey declarou noutra publicação: «Rudy vendeu vinho falsificado no valor de 130 milhões de dólares».
Em dezembro de 2016, o valor já tinha atingido os 550 milhões de dólares. E, em outubro de 2018, Downey afirmava que 592 222 222–683 333 333 dólares era o «valor do vinho produzido por Rudy K (sic) que ainda existe no mercado».

Downey escreveu: «Uma vez que nos faltam 81,7% dos dados temporais/bancários que permitiriam verificar os montantes recebidos, bem como 53,2% das receitas de vendas de consignações em leilão conhecidas (sic) e ainda uma miríade de outras vendas sobre as quais não dispomos de quaisquer dados, apesar de sabermos que ocorreram (sic), é justo e necessário acrescentar um determinado montante que represente o volume considerável de dados de vendas em falta.»
O FBI e outras autoridades judiciais dos EUA parecem não ter detetado os dados revelados apenas à Sr.ª Downey. Como ela própria admite aqui, inventou a maioria dos números.
É difícil dizer se estas deturpações são meros erros de avaliação causados por uma compreensão deficiente dos números ou se foram feitas deliberadamente para promover o interesse pessoal de Downey em que se acredite na existência de vinhos contrafeitos no mercado. Uma negligência tão ostensiva leva-nos a questionar quantas outras incorreções haverá no trabalho de Maureen Downey.
Na Arden Fine Wines, a minha única preocupação é garantir que tudo o que compro ou vendo é genuíno e constitui o melhor exemplar possível de um determinado vinho. A isso chama-se integridade (idealmente sustentada pela literacia e pela numeracia) e, como demonstrei, é algo que por vezes falta no comércio de vinhos de alta qualidade.
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